Antes que uma única cena fosse filmada para os cinemas, antes que uma única crítica fosse escrita, antes que um único ingresso fosse vendido, a batalha já começou. Duna: Parte Três garantiu exclusividade nas salas IMAX por um período que coloca Vingadores: Juízo Final numa posição incômoda de largada, e isso diz muito mais sobre o estado atual do cinema do que qualquer análise de roteiro jamais poderia dizer. O dinheiro, como sempre, fala mais alto e mais cedo.
A exclusividade IMAX não é detalhe técnico. É sinal de prestígio, de prioridade, de confiança dos exibidores em quem vai encher sala. Quando um estúdio consegue esse arranjo, significa que os donos das telas apostaram naquele produto antes de ver qualquer número real de pré-venda. Denis Villeneuve construiu essa reputação tijolo por tijolo, com dois filmes que transformaram ficção científica em experiência sensorial genuína. Não é sorte. É consequência de entrega consistente.
Já o outro lado da disputa carrega um peso diferente. A franquia Vingadores chega marcada por anos de oversaturation, de conteúdo fabricado em escala industrial para alimentar um serviço de streaming que precisa de volume antes de precisar de qualidade. A Disney fez com o universo Marvel o que toda grande corporação faz quando descobre uma galinha de ovos de ouro: ordenhou até secar, lançou série atrás de série que ninguém pediu, diluiu personagens icônicos em narrativas que servem mais ao catálogo do Disney Plus do que a qualquer visão artística. Agora, quando precisam recuperar o prestígio perdido, o IMAX já estava ocupado.
Existe uma ironia pesada nisso tudo. O estúdio que inventou o blockbuster moderno, que ensinou Hollywood a pensar em universos cinematográficos interconectados, que durante uma década dominou o calendário global de lançamentos, está hoje em posição de desvantagem estratégica diante de um diretor canadense que só quer adaptar um livro de ficção científica com honestidade. O mercado tem memória longa e paciência curta. Quando você entrega produto ruim repetidamente, as salas param de te dar prioridade, simples assim.
A alta demanda pelo produto de Villeneuve não é acidente de marketing. É resultado de um público que aprendeu a distinguir, aos trancos e barrancos, entre cinema que respeita sua inteligência e cinema que testa sua tolerância. Arrakis virou sinônimo de compromisso com a forma, com o som, com a escala visual que só o IMAX justifica. Quando o espectador decide gastar o dobro do ingresso numa sessão premium, ele quer ter certeza de que a tela grande vai acrescentar algo que a televisão não oferece. Duna entrega isso. Parte dos últimos Vingadores, honestamente, não entregou.
A disputa real não é entre dois filmes. É entre duas filosofias de produção. Uma que parte da visão de um criador e escala até o orçamento necessário. Outra que parte do orçamento e da data de lançamento e terceiriza a visão para comitês. O mercado, quando deixado em paz para funcionar, tende a recompensar a primeira e punir a segunda, ainda que demore. O que estamos vendo nessa corrida de IMAX é, no fundo, esse julgamento acontecendo em tempo real, antes mesmo do primeiro trailer oficial dos dois filmes circular pelas redes. E Arrakis, por ora, leva vantagem.
Com informações do Olhar Digital. A análise e opinião são do O Algoz.