Três reajustes em dez dias. Leia de novo, com calma, porque a frase parece banal e não é. Significa que o sistema de preços, aquele mecanismo silencioso que organiza a vida econômica de bilhões de pessoas sem que ninguém precise mandar memorando, estava sendo represado artificialmente em algum ponto da cadeia. Quando a represa cede, ela cede em cascata. Não é volatilidade de mercado, é dívida acumulada com a realidade sendo cobrada com juros.
A Índia é o terceiro maior consumidor de petróleo do planeta e suas distribuidoras, em boa parte controladas pelo Estado, operam num arranjo tipicamente esquizofrênico: cobram preços que o governo tolera enquanto o governo tolera, e quando o prejuízo aperta o caixa das estatais, o reajuste vem em sequência rápida como quem arranca esparadrapo. Quer dizer, o cidadão indiano vive na ilusão de combustível barato durante três meses para descobrir num intervalo de dez dias que a conta nunca foi adiada, apenas escondida atrás de um biombo contábil.
Olha, isto não é um problema indiano. É o problema universal de toda política de preço administrado, congelado, controlado, subsidiado ou seja lá qual for o eufemismo da estação. Quando se impede o preço de fazer seu trabalho, que é transmitir informação sobre escassez e abundância em tempo real, a informação não desaparece, apenas se acumula como pressão num cano fechado. Algum dia esse cano arrebenta. E quando arrebenta, não arrebenta de leve, arrebenta três vezes em dez dias para recuperar o tempo perdido.
Me diz uma coisa: quem se beneficia desse arranjo enquanto dura? Não é o motorista de rickshaw nem o caminhoneiro nem a dona de casa que cozinha com gás engarrafado. É o político que precisa atravessar uma eleição estadual, é a burocracia da estatal que vive de manipular a margem, é o ministro que sobe ao palanque e promete combustível barato como se fosse milagre próprio e não trabalho de geólogo a quinze mil quilômetros dali. Siga o dinheiro até o último cofre e encontrará sempre a mesma trinca: o operador político no topo, o burocrata no meio, e o contribuinte no fundo do poço pagando a festa.
O Brasil sabe desse roteiro de cor. Já viveu isso na carne, com as estatais sangrando bilhões para sustentar uma ficção populista que nenhum governo confessa ter criado mas todos herdam de bom grado quando assumem. A diferença é que o brasileiro, depois de tantos episódios, deveria ter aprendido a desconfiar de qualquer político que prometa combustível, energia ou alimento "abaixo do preço de mercado". Não existe preço abaixo do mercado, existe custo escondido em outra prateleira da sua vida, geralmente na prateleira tributária, às vezes na prateleira inflacionária, sempre na prateleira do seu salário real corroído sem que você perceba.
A lição da Índia desta semana é a mesma lição de sempre, repetida com a paciência que a realidade tem com os economistas de governo: o preço é uma verdade, e verdades adiadas voltam com juros compostos. Toda vez que um burocrata acha que sabe mais do que o mercado, o mercado eventualmente passa o boleto. E o boleto vem sempre em três parcelas de dez dias.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.