A notícia é que a liderança iraniana está dividida sobre como conduzir as negociações nucleares com os Estados Unidos, e essa divisão estaria complicando qualquer avanço diplomático. Traduzindo do diplomatês para o português: a teocracia que há quarenta e seis anos sustenta o discurso da pureza revolucionária está rachada entre os que querem dinheiro ocidental para sobreviver e os que preferem morrer abraçados ao urânio enriquecido. Não é diplomacia, é necrópsia em tempo real de um regime que apodreceu por dentro enquanto fingia exportar revolução para fora.
Vale a pena olhar para o que ninguém está olhando. Quando um governo autoritário precisa negociar, é porque já perdeu. Regime forte não senta na mesa, dita os termos. O Irã chega a Washington não porque quer paz, mas porque a economia interna virou pó, o rial vale menos que papel higiênico usado, e os jovens de Teerã já não acreditam mais na fábula dos guardiães da revolução. A divisão na cúpula não é debate filosófico sobre estratégia, é briga de hienas decidindo quem fica com o cadáver da legitimidade que sobrou.
Siga o dinheiro e tudo fica límpido. De um lado, a ala dos pragmáticos quer destravar bilhões congelados em bancos coreanos, europeus, americanos, porque sem essa injeção a Guarda Revolucionária deixa de pagar seus milicianos no Líbano, na Síria, no Iêmen. De outro, os ortodoxos sabem que ceder no nuclear significa perder a única carta de barganha que ainda mantém o regime relevante geopoliticamente. Os dois lados não discordam sobre princípios, discordam sobre qual rota leva mais rápido ao bolso. É a velha história do bandido que vira estadista quando a quadrilha começa a passar fome.
O ocidente, claro, finge que não enxerga e despeja narrativa de moderados versus linhas-duras como se fosse novela das oito. Essa dicotomia é mentira pedagógica para consumo da imprensa de Bruxelas e Manhattan. Não existe moderado no regime dos aiatolás, existe sobrevivente. Todo aiatolá que chegou ao topo enforcou opositor, financiou terror, mandou jovem manifestante para a forca por pendurar lenço. A diferença entre o pragmático e o radical é metodológica, não moral. Um quer enganar com sorriso, o outro quer enganar com punho cerrado. O destino da população iraniana, essa que nem é consultada, é o mesmo nas duas hipóteses.
E há uma lição maior aqui que ninguém quer dizer em voz alta. Toda vez que uma potência ocidental se senta para negociar com regime totalitário acreditando que vai amaciá-lo pelo comércio, o resultado histórico é o mesmo: o totalitário ganha tempo, ganha dinheiro, ganha tecnologia, e usa tudo isso para se fortalecer e voltar mais perigoso. Aconteceu com a Coreia do Norte, aconteceu com a China dos anos noventa, está acontecendo de novo agora. A ilusão de que o livre comércio civiliza déspotas é a mais cara fantasia da diplomacia contemporânea. Déspota não civiliza, déspota acumula recursos para a próxima rodada de opressão.
O que essa rachadura em Teerã realmente significa é que o regime entrou na fase terminal, aquela em que as facções internas começam a se digladiar pelo espólio antes mesmo do funeral. Negociar agora seria salvar o moribundo justamente quando ele estava prestes a sucumbir ao próprio peso. A pior coisa que Washington pode fazer é estender a mão. A melhor coisa que pode fazer é assistir, calado, enquanto a tirania se devora sozinha, como toda tirania faz quando o medo deixa de funcionar como cimento. Regime que precisa negociar para sobreviver já está morto, falta apenas alguém ter a coragem de não ressuscitá-lo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.