O caso é tão constrangedor que merece ser lido devagar. Em pleno Reino Unido, terra do habeas corpus, da Magna Carta e de séculos de retórica sobre liberdade individual, dois homens foram considerados culpados de espionar dissidentes hong-konguenses a mando de Pequim. Não estamos falando de um romance de espionagem da Guerra Fria, estamos falando de 2026, com a China comunista usando o solo britânico como pátio para perseguir quem fugiu justamente da bota do Partido. E o pior: até virar processo, ninguém aparentava ter pressa em incomodar o investidor estrangeiro.
Olha, há aqui uma daquelas ironias que só a história sabe escrever com tanto capricho. O Reino Unido entregou Hong Kong em 1997 com a promessa solene de que cuidaria dos seus, que daria abrigo a quem fosse engolido pelo abraço de Pequim. Vinte e tantos anos depois, o abrigo prometido tem grampo, tem informante, tem gente vendendo endereço de exilado por uns trocados ou por uma promessa de ascensão na hierarquia consular. Quer dizer, o refúgio existe; o que não existe é o Estado disposto a defendê-lo com a mesma firmeza com que defende a planilha de comércio bilateral.
E aqui vale seguir o dinheiro, porque no final o dinheiro sempre fala mais alto que o discurso. Londres é uma das praças financeiras mais expostas ao capital chinês do planeta. Imóveis de luxo, universidades inteiras dependendo de mensalidade de estudante de Xangai, fundos soberanos comprando infraestrutura, escritórios de advocacia faturando alto para abrir portas em Pequim. Quando o regulador finge que não vê e o político finge que não sabe, não é incompetência, é arranjo. O dissidente perseguido é o custo invisível dessa hospitalidade comercial; o lucro do banco é o benefício visível. Quem paga a conta é sempre o sujeito que ousou abrir a boca contra o tirano.
O escândalo maior, contudo, não é a operação chinesa. Ditadura faz o que ditadura faz, espiona, sequestra, intimida, e ninguém deveria se surpreender com escorpião picando na travessia. O escândalo é a democracia ocidental ter terceirizado tanto da sua espinha dorsal moral que precisa de um tribunal para descobrir, anos depois, que a embaixada de uma potência hostil estava operando como delegacia paralela dentro de seus muros. A burocracia que regula o tamanho da sacola plástica do supermercado não conseguia regular agente estrangeiro caçando refugiado em Manchester. Curiosa hierarquia de prioridades.
Há ainda a dimensão cultural, e essa é a mais corrosiva. Décadas de relativismo ensinaram que toda crítica a regime estrangeiro é "etnocentrismo", que cobrar princípios é "imperialismo cultural", que ditadura asiática deve ser compreendida nos seus próprios termos. Pois bem, eis o resultado prático dessa filosofia de seminário: o tirano interpreta sua hesitação como permissão, sua tolerância como fraqueza, sua hospitalidade como porta aberta. Civilização que não distingue amigo de inimigo termina servindo de hotel para o inimigo, com café da manhã incluso. E quando finalmente acorda, descobre que o hóspede já trocou as fechaduras.
Que sirva de lição, embora a história ensine que essas lições raramente são aprendidas no tempo certo. Liberdade não é decoração de discurso oficial, é prática diária, custosa, exigente, que pressupõe coragem de incomodar quem assina cheque gordo. Se a Coroa quiser honrar o passaporte que distribuiu aos hong-konguenses, vai ter que escolher: ou protege quem buscou refúgio sob sua bandeira, ou admite de uma vez que a bandeira é só pano colorido para vender no aeroporto. Refúgio sem proteção é cilada; promessa sem cumprimento é farsa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.