O exercício se chama African Lion, nome pomposo que junta tropas americanas, marroquinas e meia dúzia de coadjuvantes num teatro militar a milhares de quilômetros de qualquer interesse direto do contribuinte que paga a conta. No meio do espetáculo, dois soldados americanos simplesmente somem. Operação de busca e resgate acionada, helicópteros no ar, comunicado oficial morno, manchete que dura doze horas no ciclo de notícias e pronto, segue o jogo. O leitor distraído lê, lamenta e vira a página. O leitor que pensa pergunta outra coisa, a saber, o que exatamente esses rapazes estavam fazendo ali.
O império americano sustenta hoje algo em torno de oitocentas bases militares espalhadas por mais de setenta países, número que envergonharia qualquer faraó megalomaníaco da Antiguidade. African Lion é apenas um pedacinho dessa engrenagem, um exercício anual que custa dezenas de milhões de dólares por edição, mobiliza milhares de uniformes e produz, em troca, fotografias institucionais e relatórios que nenhum congressista lê. O argumento oficial é sempre o mesmo, projeção de poder, parceria estratégica, combate ao terrorismo, estabilidade regional, palavras-ônibus que cabem qualquer carga e justificam qualquer fatura.
Siga o dinheiro e o nevoeiro se dissipa. Cada exercício desses irriga a indústria de defesa, alimenta empreiteiros logísticos, sustenta consultorias de segurança e garante que o orçamento militar do ano seguinte chegue intocável ao plenário, porque cortar verba de tropa em missão é politicamente suicida. O cidadão paga imposto em Ohio para que um general almoce com um coronel marroquino e dois jovens de vinte e poucos anos sumam num deserto que nenhum deles tinha motivo civilizatório para pisar. O que se vê é a manchete dramática da busca; o que não se vê é a estrutura que os colocou lá em primeiro lugar.
Existe ainda o aspecto moral da coisa, e aqui o silêncio da imprensa é ensurdecedor. Esses dois soldados são filhos de alguém, provavelmente da classe trabalhadora americana, recrutados com promessas de bolsa universitária e propósito patriótico, despachados para servir de peças num tabuleiro geopolítico cuja lógica nem o Pentágono consegue mais explicar com cara séria. Quando voltam em caixões, viram cerimônia em base aérea. Quando somem, viram parágrafo perdido em portal financeiro. Em ambos os casos, a máquina não para um segundo para perguntar se valeu a pena.
O Marrocos, vale lembrar, é um reino autoritário com seu próprio rol de problemas, mas habilmente posicionado como aliado preferencial porque entendeu cedo que vender hospitalidade militar aos americanos rende mais que qualquer commodity. O regime se legitima junto a Washington, recebe equipamento de ponta a preço político, e em troca cede pedaços do próprio território para que estrangeiros simulem guerras imaginárias. É o velho arranjo do compadrio internacional, onde governos coçam as costas uns dos outros e o cidadão dos dois lados paga a conta sem nunca ter sido consultado.
Que os dois militares apareçam vivos, é o desejo decente de qualquer um. Que o desaparecimento sirva de pretexto para alguém finalmente perguntar em voz alta por que mantemos um exército global numa era em que nenhuma guerra existencial está em curso, é o desejo do realista. Império custa caro, custa em dinheiro, custa em vidas, custa em liberdade interna, porque república que sustenta legiões em três continentes mais cedo ou mais tarde descobre que as legiões voltam para casa com os hábitos que aprenderam fora. O deserto marroquino engoliu dois rapazes hoje. Amanhã engole o orçamento, depois de amanhã engole a república.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.