Em 1961, o Congresso americano fez uma coisa que parecia simplesmente conveniente na época: concedeu à NFL uma isenção antitruste especial, o Sports Broadcasting Act, que permitia que todos os times da liga negociassem seus direitos de transmissão como um bloco unificado. A intenção declarada era proteger o esporte nacional. O resultado, seis décadas depois, é uma liga que fatura aproximadamente 11 bilhões de dólares por ano só em direitos de mídia, contratos distribuídos entre NBC, CBS, ESPN, Prime Video e Netflix, e o torcedor americano médio que precisa assinar três ou quatro serviços diferentes para assistir ao time que sempre assistiu, de graça, na tevê aberta da sala de seus pais.

O Departamento de Justiça chegou agora, em abril de 2026, com semblante de fiscal severo, abrindo investigação antitruste sobre se esses contratos violam as leis de concorrência. Senadores republicanos aplaudem. A imprensa cobre como se fosse um ato de coragem institucional. Ninguém para para fazer a pergunta óbvia: quem construiu a estrutura que tornou possível toda essa concentração? A resposta, inconveniente como sempre, é o próprio governo federal. Uma liga de 32 franquias privadas, negociando em bloco como entidade única, é exatamente o tipo de cartel que as leis antitruste existem para proibir; só que Washington explicitamente autorizou esse arranjo por décadas. Agora que o poder migrou para o streaming, fragmentou a audiência e esvaziou o bolso do fã comum, a capital americana descobre um escândalo onde antes via apenas política industrial esportiva.

Siga o dinheiro, sempre. Os 11 bilhões anuais em direitos de mídia não caem do céu: saem do bolso das famílias americanas, diluídos em assinaturas, pacotes de cabo e planos especiais de fim de semana. O que antes era gratuito na tevê aberta virou produto premium fracionado em múltiplas plataformas. O "Sunday Ticket", que dava acesso a todos os jogos, custava mais de 400 dólares por temporada antes de migrar para o Google. A NFL não chegou a essa posição por mérito de mercado; chegou porque o governo a blindou da concorrência por tempo suficiente para construir um poder de barganha que nenhuma empresa conseguiria sustentar num ambiente genuinamente competitivo. A isenção de 1961 foi o fertilizante. Os 11 bilhões são a planta.

Há um padrão tão repetido na história americana que já seria cômico se não fosse pago pelo contribuinte. O Estado cria um privilégio, o mercado capitaliza esse privilégio, os preços sobem, os consumidores reclamam, e o mesmo Estado que fabricou o problema aparece com uma investigação salvacionista para consertar o que ele próprio quebrou. O ciclo não termina com a investigação: termina com mais regulação, mais burocracia, mais advogados bilhados, mais custos embutidos nos mesmos contratos de direitos que custarão ainda mais caro para as emissoras, que repassarão ainda mais caro para o assinante. A janela foi quebrada, e o governo está contratando os vidraceiros.

A questão de fundo não é se a NFL abusou de sua posição. A questão é por que a NFL tem essa posição. A resposta está num ato do Congresso de 65 anos atrás que nenhum senador se deu ao trabalho de mencionar ao postar indignação nas redes sociais. Revogar a isenção de 1961 resolveria o problema na raiz, exporia a liga à concorrência real, forçaria os times a negociar individualmente seus direitos e devolveria ao mercado a função de precificar o acesso ao entretenimento esportivo. Mas revogar uma lei velha não rende coletiva de imprensa, não gera clip de campanha e não coloca nenhum nome em manchete. Investigação do DoJ, sim. E é por isso que o problema continuará existindo depois que a investigação for arquivada.

Com informações da CNBC. A análise e opinião são do O Algoz.