O Ibovespa recuou, reduziu perdas, o dólar oscilou, o petróleo assustou e os analistas de banco entraram ao vivo nos canais de notícias para explicar o inexplicável com vocabulário suave e voz de locutor de telemarketing. O Estreito de Ormuz, por onde passa quase vinte por cento do petróleo consumido no planeta, permanece fechado. Uma guerra que começou seis semanas atrás no Oriente Médio e que, segundo os jornais mais bem comportados, "continua trazendo volatilidade aos mercados", transformou o portfólio de qualquer brasileiro que investe na bolsa em refém de decisões tomadas por generais e chanceleres que esse mesmo brasileiro nunca votou e cujos nomes mal consegue pronunciar.
O curioso, para não dizer o escândalo, é o que o mercado financeiro celebra como "alívio". Um cessar-fogo de duas semanas mediado pelo Paquistão entre Washington e Teerã foi suficiente para derrubar o dólar e animar o Ibovespa por alguns dias. Duas semanas. Não uma paz, não um acordo, não uma resolução, mas um intervalo entre hostilidades costurado às pressas por diplomatas de um país que ele mesmo vive no fio da navalha nuclear. E já na primeira semana a mídia iraniana anunciava que três cláusulas do acordo haviam sido violadas. Dois dias de otimismo, depois o pessimismo de volta, depois outro "alívio", depois outra piora. O mercado não está precificando o futuro, está sofrendo de bipolaridade induzida por comunicados de imprensa.
Olha, existe algo profundamente revelador nessa dança. Quando o preço de um ativo no Brasil depende mais do que decidem políticos em Tel Aviv, Teerã ou Washington do que do lucro real das empresas brasileiras, do crescimento real da economia ou da produtividade real dos trabalhadores, você está diante de um mercado deformado. Não é aquele mecanismo elegante onde milhões de escolhas individuais se agregam em informação via preços. É um mercado onde o sinal de preço foi contaminado por ruído geopolítico estatal, onde a volatilidade não é descoberta de valor mas pânico institucionalizado. O petróleo a cem dólares não reflete escassez produtiva. Reflete um Estreito fechado por decreto de guerra, uma decisão tomada por um punhado de pessoas que estão muito longe de pagar a conta.
Siga o dinheiro. Enquanto o investidor pessoa física assiste seu fundo de ações subir dois por cento hoje e cair três por cento amanhã, existe uma indústria inteira prosperando com essa volatilidade: mesas de câmbio dos grandes bancos, fundos de commodities que já compraram o petróleo antes do fechamento do Estreito e agora vendem com margem generosa enquanto o caminhoneiro brasileiro paga mais pelo combustível e a padaria repassa o custo ao pão. A inflação que nasce do petróleo caro não cai no colo dos bem posicionados. Cai no colo de quem não tem hedge, de quem não tem acesso às mesas sofisticadas, de quem só tem salário e conta no banco. Isso é o que acontece quando guerras de Estado distorcem mercados globais: os custos são socializados e os ganhos ficam concentrados.
Me diz uma coisa: o debate que não aparece em nenhum canal de televisão é este. Quem se beneficia com o Estreito de Ormuz fechado? Não os consumidores. Não as empresas que dependem de logística. Não os países emergentes sem reservas em dólar para amortecer o choque. Beneficiam-se os grandes produtores de petróleo que operam fora da região, os especuladores de energia e os governos que usam a crise como alavanca geopolítica. O mercado, enquanto isso, faz o que sempre faz quando governos jogam xadrez com ativos reais: oscila, especula e cobra o pedágio de quem não tem escolha a não ser pagar.
No fim do dia, o dólar fechou a tal patamar, o Ibovespa encerrou em tal nível e o noticiário econômico vai repetir amanhã o mesmo ciclo com outros números e o mesmo texto de fundo. A notícia real, aquela que nenhum repórter vai escrever, é que o mercado financeiro brasileiro perdeu a capacidade de se mover por fundamentos próprios e passou a funcionar como terminal de saída para os choques que Estados soberanos decidem infligir ao resto do mundo. Quando a bolsa depende mais de um cessar-fogo de duas semanas do que de balanços trimestrais, algo estrutural foi quebrado, e o conserto não vem de declaração de banco central nem de nota de ministério da fazenda. Vem, ou não vem, de Islamabad.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.