O dólar canadense está colado na mínima de várias semanas, e a manchete polida do noticiário financeiro fala como se a moeda tivesse simplesmente escorregado num dia chuvoso em Toronto. Quer dizer, ninguém é culpado, ninguém decidiu nada, o loonie meio que perdeu valor sozinho, como se moedas tivessem livre arbítrio. Olha, moeda não cai por acaso. Moeda cai porque alguém, em algum gabinete climatizado, decidiu que o problema fiscal do país se resolvia com mais liquidez, mais crédito barato e mais promessas pagas com dinheiro que ninguém produziu.

O Canadá é o estudo de caso perfeito da doença que se espalhou pelo Ocidente nas últimas três décadas. Construíram uma economia inteira em cima do imobiliário inflado por juros artificialmente baixos, importaram demanda via política migratória descontrolada, expandiram o Estado até virar o maior empregador do país e agora se espantam quando o mercado, esse senhor desagradável que não lê comunicados oficiais, faz o ajuste de preços que os burocratas se recusaram a fazer. O câmbio é o termômetro. Quando o termômetro marca febre, o problema não é o termômetro.

Me diz uma coisa, quem ganha com a moeda fraca? Exportador de commodity ganha no curto prazo, governo ganha porque arrecada imposto sobre nominal inflacionado, e o devedor público, que é o maior devedor de todos, paga sua dívida com dinheiro pior do que aquele que pegou emprestado. Quem perde? O sujeito que trabalhou trinta anos, poupou em dólar canadense achando que estava guardando valor, e agora descobre que sua aposentadoria foi corroída por uma decisão que ele nunca foi consultado. Isso tem nome. Não é política monetária. É confisco silencioso, executado por terno e gravata, com PowerPoint e relatório trimestral.

O detalhe que ninguém quer comentar é que a fraqueza do loonie não é um evento isolado, é parte de uma coreografia global em que bancos centrais competem para ver quem desvaloriza primeiro, quem socializa mais o prejuízo da gastança política, quem consegue empurrar a conta para a próxima geração com mais elegância retórica. Cada um joga o problema no terreno do vizinho e chama isso de estímulo. É o velho truque do mercantilismo travestido de modernidade, vendido com gráfico bonito por economistas que não entendem que dinheiro fácil hoje é miséria garantida amanhã.

A imprensa especializada vai continuar tratando o tema com aquela linguagem asséptica, falando em pressão sobre a moeda, ventos contrários no mercado de commodities, expectativa em relação ao próximo movimento do banco central, toda essa parafernália de eufemismos que existe para que ninguém tenha que dizer a verdade incômoda. A verdade é simples e cabe numa linha. País que gasta mais do que produz, imprime mais do que arrecada e regula mais do que liberta, tem moeda fraca. Sempre teve. Sempre terá. O resto é literatura para entreter quem não quer pensar.

E quando o canadense comum perceber que sua casa não subiu de preço, foi a moeda dele que encolheu, talvez comece a fazer a pergunta certa. Não é por que o dólar está caro. É por que confiaram na promessa de que política monetária era mágica e não matemática. A resposta sempre esteve ali, escrita em letras grandes na primeira página do livro de história, ignorada por todo governo que achou que dessa vez ia ser diferente.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.