O dólar operou abaixo dos cinco reais nesta segunda-feira com o Ibovespa reduzindo perdas, e os noticiários financeiros trataram isso como notícia boa. Talvez seja. Ou talvez seja o tipo de coisa que parece boa quando você decide, deliberadamente, não olhar para o contexto. O contexto é o seguinte: um cessar-fogo frágil entre os Estados Unidos e o Irã, que durou dias o suficiente para levar o câmbio de R$ 5,15 para R$ 5,01, não sobreviveu ao fim de semana de negociação em Islamabad. Mais de vinte e uma horas de conversas que terminaram com o chanceler iraniano denunciando "maximalismo americano" e Donald Trump ameaçando bloquear o Estreito de Ormuz. O petróleo, que respira cada palavra desse conflito, voltou a operar acima de cem dólares o barril.
Quer dizer, o preço do dólar abaixo dos cinco reais não é um prêmio à solidez da economia brasileira. É o resultado de um diferencial de juros que seria cômico se não fosse trágico. Enquanto o mundo paga menos de cinco por cento ao ano para guardar dinheiro parado, o Brasil paga o equivalente a duas vezes isso e meia. O capital estrangeiro não veio para o Brasil porque confia no fundamento fiscal do país, no teto de gastos, na reforma administrativa ou na seriedade das suas instituições. Veio porque a arbitragem é irresistível, e vai embora exatamente na noite em que o Estreito de Ormuz fechar. O que se comemora hoje não é a força do real. É a fraqueza da nossa taxa de juros como política de defesa cambial, um artifício que tem prazo de validade escrito na testa.
Olha, o Ibovespa chegou a cair mais de um por cento nos contratos futuros quando a notícia do fracasso das negociações cruzou os terminais. Fechou o dia com perda de apenas 0,45%, nos 196 mil pontos. Isso foi apresentado como "redução de perdas", o que tecnicamente é verdade, da mesma forma que é verdade dizer que o Titanic "reduziu a velocidade" antes de afundar. O índice está em máximas históricas, sim, mas construídas sobre um terreno em que o petróleo vale cem dólares, uma guerra no Oriente Médio completou seu quadragésimo e poucos dias, e a principal rota de exportação de energia do planeta depende de uma palavra de Trump que muda de acordo com o noticiário da manhã.
Me diz uma coisa: quem está comprando Ibovespa a 196 mil pontos com petróleo acima de cem dólares e risco de bloqueio do Estreito de Ormuz precificado em quanto exatamente? O preço de um ativo não é a realidade, é uma aposta na realidade futura. E a aposta que está sendo feita agora é que o cessar-fogo vai resistir, que Trump não vai bloquear nada, que o Irã vai recuar, e que o Brasil vai colher os frutos de uma commodity energética cara sem sofrer os custos de uma disrupção global no fornecimento. É uma aposta generosa. Apostas generosas às vezes ganham, especialmente quando o banco central do país devedor está segurando o câmbio com uma estilingue de juros. Mas a lógica de toda a história das guerras no Oriente Médio, desde que se tem registro, é que aquilo que deveria resolver em dias, resolve em anos, e aquilo que deveria custar pouco custa o dobro do imaginado.
O que não se vê no noticiário de hoje é a conta que chega depois. Cada ponto percentual de juro básico que o Brasil usa para segurar o real é dívida pública que cresce, é custo de capital que mata empresa, é spread bancário que sufoca o empreendedor. O câmbio "bom" de hoje é financiado pela geração que vai pagar a dívida de amanhã. E quando o cessar-fogo se romper de vez, quando o petróleo cruzar os 110, os 120, quando a fuga de capitais transformar o diferencial de juros em insuficiente, o mercado vai redescobrir que o Brasil tem um déficit primário, uma reforma tributária mal resolvida e uma classe política que viu o dólar a cinco reais como uma oportunidade de gastar mais. A memória do mercado financeiro é seletiva por definição. A memória da conta fiscal é permanente.
O cessar-fogo entre Washington e Teerã pode durar mais uma semana ou mais um ano. Ninguém sabe, inclusive os dois lados. O que se sabe é que vinte e uma horas de negociação em Islamabad não produziram nada além de acusações mútuas e um Estreito de Ormuz sobre o qual o presidente dos Estados Unidos já demonstrou que está disposto a fazer qualquer coisa exceto o que é previsível. Comemorar o dólar abaixo dos cinco reais neste contexto é festejar a janela aberta enquanto o vizinho está chamando o bombeiro. A janela pode não estar pegando fogo ainda. Mas o olfato de quem prestou atenção à história sabe reconhecer o cheiro.
Com informações do Valor Econômico e CNN Brasil. A análise e opinião são d'O Algoz.