O dólar cedeu para baixo dos cinco reais e a manchete já saiu como se Brasília tivesse feito algo digno de comemoração. Não fez. O que houve foi notícia de que Washington e Teerã estariam costurando algum tipo de acordo, o petróleo recuou, o apetite por risco voltou, e moedas emergentes pegaram carona no humor melhor lá fora. Quer dizer, a nossa "vitória cambial" foi decidida em uma reunião reservada a milhares de quilômetros daqui, por gente que não sabe nem onde fica o Planalto. Isso não é força da economia, é gravidade de favor.
O brasileiro médio, treinado em quase quarenta anos de inflação domesticada na marra, olha para o número na tela do banco e respira aliviado, como se o câmbio fosse termômetro de prosperidade. Não é. O câmbio é termômetro de confiança, e confiança não se decreta, se conquista com responsabilidade fiscal, regra estável e respeito ao contrato. Nada disso está sobre a mesa. O que está sobre a mesa é gasto público crescente, arcabouço que já nasceu furado, e um Banco Central que precisa fazer malabarismo com juros porque o Tesouro tratou a poupança alheia como cofrinho próprio.
Olha, a parte que ninguém quer enxergar é a fila invisível de prejuízos que essa montanha-russa cambial produz silenciosamente. Cada oscilação dessas reprecifica importações, embaralha contratos, paralisa investimento de médio prazo, e penaliza justamente o sujeito que produz, o que contrata, o que arrisca capital próprio. Enquanto isso, o exportador de commodity festeja o dólar alto e o importador festeja o dólar baixo, e no meio fica o cidadão pagando a conta de uma volatilidade que não escolheu, não votou e não autorizou. Isso tem nome velho, é pilhagem disfarçada de política econômica.
Repare na coreografia. Quando o dólar sobe, a culpa é "do cenário externo", "da geopolítica", "do Federal Reserve". Quando o dólar cai, o mérito é da equipe econômica, da habilidade ministerial, da credibilidade reconstruída. Sempre que a coisa quebra, a responsabilidade é difusa; sempre que melhora por acaso, o crédito é nominal e oficial. Velho truque, repetido em ditadura militar, em redemocratização, em governo de centro, de esquerda, de direita. Muda a fantasia, o ator é o mesmo, e o roteiro também.
E tem o detalhe geopolítico que ninguém comenta com a seriedade devida. Estamos festejando o dólar mais barato porque dois governos estrangeiros, um deles teocracia que enforca dissidente em guindaste, podem ter chegado a um arranjo provisório sobre petróleo e sanções. Amanhã, se um general de meia-tigela em Teerã resolver discursar mais alto, ou se algum drone aparecer no lugar errado, esse mesmo dólar volta para R$5,30 antes do café. Construir expectativa econômica em cima disso é o mesmo que planejar piquenique olhando para nuvem.
A verdade desconfortável é que moeda forte de verdade não vem de notícia boa, vem de instituição sólida, gasto controlado, propriedade respeitada e Estado pequeno o suficiente para não engolir quem produz. Enquanto o Brasil continuar tratando câmbio como sorte do dia e ignorar o tamanho do próprio rombo, vamos seguir nessa rotina patética de comemorar centavos que o vento trouxe e que o próximo vento leva. Festa de bêbado dentro de casa pegando fogo é exatamente isso, uma celebração que cheira a fumaça.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.