Vinte por cento do petróleo que move o mundo passa pelo Estreito de Hormuz. Num corredor de água de pouco mais de cinquenta quilômetros de largura no ponto mais estreito, transita toda a produção do Golfo Pérsico em direção ao resto do planeta. Quem controla Hormuz não controla só petróleo, controla o ritmo cardíaco da economia industrial global. E foi exatamente nesse corredor que o presidente dos Estados Unidos decidiu plantar uma bandeira depois que as "negociações de paz" com o Irã, ao que parece, não produziram o resultado esperado. Siga o dinheiro antes de seguir o discurso.
A sequência dos acontecimentos merece atenção clínica, não emocional. No fim de semana, as conversas entre Washington e Teerã travaram. Na segunda-feira de manhã, veio o bloqueio. O petróleo subiu. O dólar se fortaleceu. As ações do setor de defesa dispararam nos mercados de Nova York. Existe um padrão aqui que qualquer pessoa com olhos abertos reconhece, porque já viu antes. Em 1990 o padrão tinha nome de Saddam Hussein. Em 2003, tinha nome de armas de destruição em massa que nunca foram encontradas. O nome muda, o padrão não. A Guerra ao Terror durou duas décadas e custou oito trilhões de dólares. Oito trilhões que foram para algum lugar. Para saber onde foram, não precisa de teoria da conspiração, precisa de uma pesquisa no portfólio das contratadas de defesa nos anos seguintes a setembro de 2001.
O dólar se fortalece nos momentos de crise geopolítica porque o mundo ainda opera, por inércia histórica e por falta de alternativa consolidada, num sistema em que o petróleo é precificado em dólares e a incerteza global redireciona capital para os títulos do Tesouro americano como se fossem o único porto seguro existente. Este arranjo não surgiu por acidente. Surgiu de Bretton Woods, foi cimentado pelo acordo informal com Riad nos anos 1970, e se sustenta porque qualquer nação que tente romper com ele descobre rapidamente que Washington tem objeções severas a isso, geralmente expressas numa linguagem que os diplomatas chamam de "pressão" e os historiadores chamam de outra coisa. O fortalecimento do dólar num momento de crise no Golfo não é fenômeno natural, é o pagamento de um dividendo num sistema deliberadamente construído para produzir exatamente esse resultado.
Quer dizer, há uma ironia que beira o cômico no fato de que uma potência que se apresenta ao mundo como defensora da ordem e da paz seja sistematicamente a única com mecanismos para lucrar quando a ordem e a paz desaparecem. O produtor de xisto no Texas acorda com o barril a setenta dólares e deita com o barril a oitenta e cinco. O fabricante de mísseis em Virgínia vê suas ações subirem três por cento antes do almoço. O gestor de fundo que apostou em volatilidade no Golfo seis meses atrás cobre o bônus de fim de ano. Enquanto isso, o motorista de aplicativo em São Paulo paga mais no combustível, o caminhoneiro repassa para o frete, o frete repassa para o supermercado, e o supermercado repassa para você. Esse é o custo invisível que ninguém coloca na manchete quando o "dólar ganha" e o "petróleo sobe".
A questão iraniana tem décadas de camadas que a imprensa corporativa, com sua memória institucional de um ciclo de notícias, raramente desdobra com honestidade. O programa nuclear do Irã é real, os mísseis balísticos são reais, o financiamento a grupos proxy no Oriente Médio é real. Mas também é real que o Irã de 2026 é parcialmente produto do Irã que os Estados Unidos e o Reino Unido ajudaram a moldar quando derrubaram Mossadegh em 1953 porque ele teve a impertinência de querer nacionalizar o petróleo do seu próprio país. O ódio tem endereço e data de nascimento. Ignorar esse contexto não é jornalismo sério, é propaganda com subtítulos neutros.
Olha, o bloqueio pode ter justificativa estratégica, pode ser blefe negocial, pode ser pressão legítima sobre um regime que de fato ameaça a estabilidade regional. Pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Mas o cidadão que observa quem enriquece quando o Estreito fecha tem, no mínimo, o direito de fazer a pergunta que os analistas de banco e os colunistas alinhados preferem não fazer: quem, exatamente, tem interesse em que as negociações falhem? A resposta não está no discurso presidencial. Está no portfólio dos fundos que apostaram certo.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.