O Brent escalou os 110 dólares e o futuro do Dow Jones recuou na velocidade habitual com que os mercados aprenderam a reagir a manchetes vindas do Estreito de Ormuz. A narrativa é sempre a mesma, com figurinos trocados: Teerã ameaça, Washington responde, o petróleo dispara, e logo aparecem economistas de gravata explicando que a culpa da inflação que virá é da geopolítica, dos especuladores, do clima, dos chineses, de qualquer coisa, menos do verdadeiro responsável, que continua sentado confortavelmente no edifício do banco central mais próximo.

Convém lembrar uma coisa que ninguém na imprensa econômica gosta de dizer em voz alta. O preço do petróleo subir não cria inflação; ele transfere poder de compra de quem consome combustível para quem o produz. O que cria inflação é o governo americano gastar trilhões que não tem, monetizar a dívida via Fed e depois apontar para o aiatolá como se Teerã fosse responsável pelo cheque que o Tesouro emitiu em Washington. É o velho truque do mágico, que faz o público olhar para a mão esquerda enquanto a direita executa o golpe.

Vale seguir o dinheiro, porque ele sempre conta uma história mais honesta que os porta-vozes. Cada dólar a mais no barril significa receita extraordinária para as petroleiras americanas que produzem xisto, para os emirados do Golfo, para a Rússia que, vejam só, deveria estar sufocada pelas sanções, e para empreiteiras militares que já abrem o champanhe quando a palavra Irã aparece num discurso presidencial. Existe uma indústria inteira que vive da tensão permanente, e essa indústria não tem o menor interesse em resolver coisa alguma. Tensão resolvida é faturamento perdido.

O brasileiro que assiste a tudo isso de longe deveria desconfiar quando o noticiário tratar a alta do petróleo como fenômeno meteorológico, algo que cai do céu sem responsáveis identificáveis. Não cai. É consequência direta de décadas de política externa intervencionista que transformou metade do mapa-múndi em palco permanente de aventura militar, somada a uma política monetária que financia essas aventuras imprimindo o que falta no caixa. O posto de gasolina na esquina do Sir cobra o preço da bomba como reflexo distante de uma decisão tomada num gabinete climatizado a dez mil quilômetros dali.

E há a expectativa pelos balanços corporativos, como se os números trimestrais das grandes empresas pudessem ser lidos sem considerar que estão denominados numa moeda que perde valor todo dia. Lucro nominal recorde com moeda derretendo é o equivalente contábil a vencer uma corrida porque a linha de chegada foi movida para trás. Os analistas comemoram, os acionistas brindam, o trabalhador comum descobre meses depois que seu salário compra menos pão. É a mágica que se repete a cada ciclo, e a cada ciclo encontra novos crédulos.

O Estreito de Ormuz continuará sendo a desculpa preferida para tudo que der errado nos próximos meses. Convém anotar o nome, porque será repetido nos jornais como mantra. Mas quem entende a partitura sabe que a verdadeira orquestra está afinando os instrumentos bem longe dali, em prédios com colunatas neoclássicas onde nunca se ouve o barulho de uma bomba, apenas o som suave de teclas digitando zeros adicionais.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.