A DTE Energy, monopolista regulada no estado de Michigan, acaba de cravar um pedido de US$ 1,6 bilhão em sistemas de armazenamento por baterias supostamente fabricadas dentro do próprio estado. O anúncio veio embrulhado no papel de presente de sempre: empregos locais, transição energética, soberania industrial, futuro verde, orgulho americano. Falta apenas a trilha sonora patriótica e o aceno da bandeira ao fundo. O que não aparece no release é a pergunta elementar que qualquer pessoa com dois neurônios em funcionamento deveria fazer antes de bater palma: quem, exatamente, está pagando essa conta?
Quem paga, claro, é o consumidor cativo. A DTE não opera em mercado livre. Ela vende eletricidade num regime de monopólio territorial garantido por lei, com tarifa aprovada por uma comissão estadual que, por uma coincidência espantosa, costuma engolir quase tudo que a empresa pede. O sujeito que liga a geladeira em Detroit não escolhe fornecedor. Ele recebe a fatura e paga, ponto. Quando a empresa decide gastar US$ 1,6 bilhão em qualquer coisa, do parafuso à megabateria, esse custo entra na base regulatória e volta multiplicado, com lucro garantido por cima, na conta de luz dos próximos vinte anos. É a definição manualística de risco zero para o investidor e risco total para quem não foi sequer convidado para a reunião.
Some-se a isso a sopa de subsídios federais e estaduais que tornam baterias americanas competitivas no papel, e o quadro fica completo. O contribuinte paga uma vez via imposto que financia o crédito fiscal da fábrica. Paga uma segunda vez na tarifa, porque a "bateria nacional" custa mais que a equivalente asiática e a diferença vai para a base de remuneração. E paga uma terceira vez no preço de tudo o que consome, porque energia cara contamina toda a cadeia produtiva. Três faturas para o mesmo cidadão, e os jornais econômicos noticiam como vitória da inovação. Vitória de quem, cara pálida?
O arranjo é antigo, só muda a fantasia da temporada. Antigamente era o setor automobilístico que precisava de proteção, depois foi o aço, depois o etanol, agora é a bateria verde. A justificativa se renova, a estrutura é a mesma: empresa privilegiada, regulador capturado, político posando para a foto, fornecedor escolhido a dedo, contribuinte sem voto e sem voz. Chamar isso de mercado é piada de mau gosto. É capitalismo de compadrio com verniz tecnológico, e o verniz engana cada vez menos gente que se dá ao trabalho de ler além da manchete.
Há ainda o detalhe contábil que ninguém comenta. Sistemas de baterias em escala de rede são tecnologia jovem, com vida útil incerta, degradação acelerada e custo de reposição que ninguém sabe estimar com precisão. Colocar US$ 1,6 bilhão em ativos cuja curva de obsolescência é desconhecida, sob garantia tarifária de retorno, é jogar com o dinheiro alheio numa mesa onde a casa nunca perde. Se a tecnologia envelhecer mal, o consumidor absorve o prejuízo via revisão tarifária. Se envelhecer bem, o acionista embolsa o lucro. Cara eu ganho, coroa você perde, e o regulador assina embaixo sorrindo para o fotógrafo.
O que se vê é a fábrica inaugurada, o operário contratado, o governador discursando. O que não se vê é a pequena indústria de Michigan que fechou porque a conta de luz subiu, o aposentado que cortou o aquecimento no inverno porque a tarifa apertou, o investimento privado que não aconteceu porque o capital foi sugado para subsidiar o brinquedo do monopolista. A energia mais cara da história americana recente está sendo vendida como progresso, e o povo aplaude porque ninguém teve a decência de mostrar a conta inteira. Quando mostrarem, já será tarde, e o culpado oficial será o mercado, esse personagem mítico a quem se atribui toda culpa que pertence, na verdade, ao balcão onde governo e empresa fecharam o negócio enquanto o cidadão dormia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.