A cantora Dua Lipa, dona de um patrimônio que cruzou a casa das centenas de milhões de libras, casou discretamente em Londres com o ator Callum Turner e prepara agora uma celebração de três dias na Sicília, com convidados, vinhos, vistas e o luxo que a fortuna comprada no livre mercado permite. O fato em si é banal, gente rica fazendo festa cara, novidade nenhuma desde que o primeiro mercador fenício vendeu sua primeira ânfora de azeite. O que merece análise não é a festa, é o coro de indignação seletiva que sempre acompanha esse tipo de notícia, indignação que se cala quando o desperdício é estatal e ruge quando o gasto é privado.
Vamos ao óbvio que ninguém quer enxergar. Dua Lipa ganhou cada centavo dessa fortuna vendendo álbuns, shows e licenciamentos para pessoas que voluntariamente entregaram seu dinheiro em troca de algo que valorizaram mais que o próprio dinheiro. Nenhum policial bateu na porta de ninguém exigindo a compra do último disco. Nenhum agente do fisco prendeu cidadão por não comprar ingresso da turnê. Cada libra que financia a festa siciliana saiu de uma transação livre, consentida, mutuamente benéfica, o oposto exato do mecanismo pelo qual o governo financia o casamento da filha do deputado com dinheiro arrancado do trabalhador via imposto retido na fonte.
Olha, a hipocrisia da plateia progressista é digna de estudo antropológico. A mesma turma que aplaude programa de governo bilionário com resultado pífio torce o nariz para festa privada paga com dinheiro próprio. Quer dizer, a noiva produziu valor que milhões de pessoas reconheceram, foi remunerada por isso, e agora decide gastar parte do estoque em uma festa que movimenta hoteleiros, fornecedores, músicos, cozinheiros, pescadores sicilianos e pequenos comerciantes que vão faturar mais nessa semana do que em meses normais. Isto não é desperdício, é circulação de capital saindo de quem tem para quem produz serviço, fenômeno que economista chamava de prosperidade antes de a palavra virar palavrão.
Me diz uma coisa, onde estavam os moralistas quando o governo britânico torrou bilhões em consultorias durante a pandemia, quando o BNDES brasileiro financiou frigorífico amigo com juro subsidiado, quando ministério qualquer organizou seminário em resort de luxo para discutir pobreza? O escândalo, para essa gente, nunca é o gasto em si, é a identidade de quem gasta. Empresário e artista de sucesso são vilões automáticos, burocrata gastando dinheiro alheio é estadista preocupado com o bem comum. A lógica não fecha porque nunca foi lógica, foi inveja drapeada de virtude.
O verdadeiro despotismo suave do nosso tempo não está na festa de Dua Lipa, está no cidadão comum que assiste à notícia indignado com o luxo alheio enquanto aceita passivamente que metade do seu salário desaparece em impostos antes mesmo de chegar à conta, que a inflação corrói seu poder de compra para financiar gastança de político, que a regulação estatal encarece tudo o que ele consome para proteger o lobby do amigo do ministro. A festa siciliana custa zero para você. O Estado custa tudo, e ainda exige gratidão.
Que os noivos brindem na Sicília com vinho caro e que os fornecedores locais agradeçam o capital que chegou. A festa que deveria escandalizar o contribuinte é outra, é aquela permanente, financiada compulsoriamente, em que ele nunca foi convidado mas continua pagando a conta. Riqueza voluntariamente conquistada e livremente gasta é a coisa mais civilizada que existe. O resto é pilhagem com cerimônia de Estado.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.