A Bernstein, casa que vive de cravar onde o dinheiro grande vai parar, soltou uma recomendação que diz mais sobre geopolítica do que sobre planilha de Excel. Duas ações taiwanesas, exposição pesada ao boom de inteligência artificial, e o subtexto que ninguém quer escrever em letras garrafais: a fronteira tecnológica do planeta passa por uma ilha que o regime continental quer engolir há setenta anos. Não é coincidência. É consequência.
Taiwan virou o que virou porque, num determinado momento da história recente, escolheu propriedade privada, contratos cumpridos, juiz que decide e governo que não fica metendo a mão no caixa das empresas. Do outro lado do estreito, o irmão maior escolheu planejamento central, comitê do partido decidindo o que se produz, e aquela velha mania de achar que um burocrata em sala fechada sabe alocar capital melhor do que milhões de pessoas trocando preço em mercado aberto. Resultado: a TSMC fabrica os chips que fazem o mundo funcionar, e a concorrente continental gasta bilhões em subsídio estatal para tentar copiar o que o vizinho faz por preço de mercado.
Olha, é fascinante o silêncio dos comentaristas brasileiros sobre esse detalhe. Falam horas sobre IA, sobre o futuro do trabalho, sobre o medo da máquina substituir o humano, e nunca, jamais, em hipótese alguma, perguntam por que a IA está sendo feita lá e não aqui. A resposta é desconfortável demais para a pauta da semana: porque aqui se pune o investidor, taxa-se o lucro antes de existir, regula-se o setor antes dele nascer, e gasta-se em programa social o dinheiro que poderia virar fábrica de semicondutor. Quem produz, financia quem consome. Quem arrisca, sustenta quem reclama do risco alheio.
Siga o dinheiro e a história fica clara. As duas empresas que a corretora recomenda não receberam subsídio bilionário do Estado taiwanês para existir. Cresceram porque encontraram um ambiente onde o lucro não é pecado, o capital não é confiscado e o engenheiro brilhante pode ficar rico sem pedir licença ao ministério. Enquanto isso, a tentativa europeia de fabricar chips locais com dinheiro público vira escândalo de captura regulatória, a americana CHIPS Act vira distribuição de favor político, e o Brasil discute se cria um Pix para inteligência artificial.
O que se vê é a manchete: ações sobem, IA bombando, Taiwan na crista da onda. O que não se vê é o caminho institucional que levou aquela ilha a ser o que é, e o caminho oposto que mantém países inteiros importando tecnologia que poderiam estar exportando. Não é falta de talento. O Brasil tem cérebro de sobra, talvez mais por metro quadrado do que Taiwan. O que falta é o ambiente onde esse cérebro possa virar empresa sem ser estrangulado no berço por imposto, alvará, agência reguladora e ministro com ideia genial.
A lição que a recomendação da corretora entrega de bandeja, e que ninguém aqui vai ler em alto e bom som, é simples: liberdade econômica não é tese ideológica de blogueiro. É a infraestrutura invisível que decide quem fabrica o futuro e quem fica importando o futuro fabricado pelos outros. Taiwan escolheu, paga o preço de viver sob ameaça, e colhe o dividendo de produzir o que o mundo precisa. O continente do lado escolheu o oposto, gasta fortunas tentando copiar, e continua atrás. Quem aposta contra isso aposta contra a aritmética da civilização.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.