O governo estuda "autorizar" o trabalhador a sacar até 20% do FGTS para quitar dívidas. Leia essa frase de novo, devagar, até o absurdo fazer barulho. O Estado retém compulsoriamente uma fatia do salário de cada empregado formal do país, rende esse dinheiro abaixo da inflação por décadas, e agora se apresenta como benfeitor porque vai "permitir" que o dono do dinheiro acesse uma quinta parte do que é seu. É como o ladrão que devolve a carteira e espera agradecimento por ter deixado os documentos dentro.

O mecanismo real é mais sutil e mais grave do que parece na primeira manchete. O trabalhador que ganha até cinco salários mínimos, já sufocado pela inflação que corrói seu poder de compra mês a mês, acumulou dívidas porque seu salário real encolheu enquanto os juros do crédito ao consumidor permaneceram entre os mais altos do planeta. Esse endividamento não surgiu do nada. Foi cultivado em décadas de política monetária que expande crédito artificialmente, estimula o consumo presente às custas do futuro, e depois se espanta quando a conta chega. A solução proposta para o problema causado pela intervenção é, naturalmente, mais intervenção.

Siga o dinheiro. O desconto anunciado de 90% sobre as dívidas soa bem no título, mas alguém precisa absorver esse desconto. Quem comprou as carteiras podres dos bancos com ágio? Quem vai se sentar à mesa quando esse programa for formatado? O sistema financeiro não é filantropia. Se há 90% de desconto sendo negociado, é porque alguém já precificou a inadimplência e há lucro no arranjo. O trabalhador sai com a sensação de alívio, o banco sai com a carteira limpa e eventualmente ressarcida por algum mecanismo indireto, e o FGTS sai menor. A conta final, como sempre, é do contribuinte que ainda não sabe que está pagando.

Há um detalhe que o comunicado ministerial prefere não iluminar: o FGTS é, constitucionalmente, uma garantia contra o desemprego. É o colchão que deveria amparar o trabalhador demitido enquanto busca nova colocação. Quando esse colchão é esvaziado para pagar dívidas de consumo, o trabalhador que for demitido amanhã não tem onde cair. Não há queda livre que pareça ruim no noticiário de hoje. A tragédia futura é invisível, e o governo conta exatamente com essa invisibilidade para anunciar o saque como vitória.

O que está em curso é a confissão silenciosa de que o modelo não funciona. Um Estado que compulsoriamente toma uma parcela do salário de cada trabalhador, administra esse dinheiro com rentabilidade inferior à inflação, e então precisa criar válvulas de escape emergenciais para que as famílias não entrem em colapso financeiro, esse Estado não está protegendo ninguém. Está gerenciando as consequências dos seus próprios erros às custas do mesmo trabalhador que deveria proteger. O problema com o despotismo gentil é que ele nunca anuncia o preço real. A tutela é gratuita na ida. Na volta, você paga com autonomia.

No fim, o que o ministro chamou de "estudo" é uma medida de pressão política com verniz de preocupação social. Eleição no horizonte, pesquisas de endividamento familiar nas mãos, e um fundo compulsório bilionário disponível para ser usado como moeda de paternidade. O trabalhador vai sacar, vai quitar a dívida, vai sentir alívio real, e não vai perceber que o que ele recebeu era dele desde o início. Que foi retido à força. Que rendeu menos do que deveria. E que agora foi devolvido como se fosse presente. Esse é o milagre fiscal brasileiro: transformar confisco em benevolência e fazer o confiscado aplaudir.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.