A companhia anunciou dividendo trimestral de US$ 1,10 por ação ordinária, pagável em 29 de maio aos acionistas registrados até o fim do expediente de 5 de maio. Ponto. Nenhum comunicado épico, nenhuma coletiva com lágrimas, nenhum convite para que o contribuinte americano entenda o sacrifício que a empresa está fazendo pela nação. Apenas uma gestora de capital cumprindo com quem colocou dinheiro nela, no dia marcado, no valor prometido. Parece pouco, mas para quem vive num país onde o Tesouro calota precatório e chama de responsabilidade fiscal, é quase um ato revolucionário.
Pague por um segundo o preço de compreender o que está acontecendo ali. Alguém, em algum momento, comprou uma ação. Quer dizer, alguém tirou dinheiro do bolso, recusou gastar com consumo imediato, recusou enterrar em título público, e apostou que a empresa usaria aquele capital melhor do que ele próprio. A empresa pegou o dinheiro, comprou máquina, contratou engenheiro, produziu componente elétrico que o mundo inteiro precisa, vendeu com lucro, e agora devolve uma fatia ao dono. Isso não é ganância. Isso é o ciclo virtuoso mais simples da economia, aquele que a cartilha estatista passou os últimos cem anos tentando demonizar porque, se o povo entender, acaba a festa do planejador.
Repare na assimetria com a festa tupiniquim. Aqui, empresa que distribui dividendo é chamada de rentista, acionista que recebe é chamado de parasita, e lucro é tratado como crime que precisa de imposto mínimo global para ser perdoado. Lá, a distribuição periódica é a prova de contabilidade honesta, de caixa real, de gestão que não maquia balanço para inflar bônus de executivo. A ação sobe não porque o banco central imprimiu, mas porque a empresa gera caixa. Coisa primitiva, eu sei. Mas é assim que países que ainda lembram o que é capital o tratam, com o mínimo de respeito.
Siga o dinheiro e a história fica mais saborosa. Esse US$ 1,10 por ação vai cair na conta de fundo de pensão de professor do Kansas, de poupador aposentado em Ohio, de brasileiro que teve juízo de diversificar fora do quintal da Faria Lima. Ou seja, o dividendo da multinacional financia, indiretamente, a tranquilidade de gente comum que não depende do INSS nem do humor do ministro da Fazenda. É exatamente esse mecanismo, multiplicado por milhões de empresas sérias, que separa sociedades que envelhecem com dignidade de sociedades que envelhecem com fila de farmácia popular. E é exatamente esse mecanismo que a elite iluminada brasileira chama de desigualdade a ser corrigida.
Enquanto isso, o nosso debate nacional gira em torno de taxar ETF, taxar offshore, taxar dividendo, taxar o ar que o empresário respira, sempre com a mesma lorota: é para financiar o social. Social para quem, me diz. Para a máquina que já consome quase metade do PIB e ainda vive reclamando que falta? Cada centavo que o governo toma do acionista para redistribuir é um centavo que não vira fábrica, não vira emprego formal, não vira dividendo futuro. A janela que o Estado quebra hoje em nome da justiça é a janela que o neto do trabalhador não terá amanhã. O que não se vê nunca entra na estatística do ministro, mas entra inevitavelmente na conta do país.
Por isso um comunicado banal de uma empresa americana pagando dividendo deveria ser leitura obrigatória nas faculdades de economia daqui. Não pela cifra, que é modesta, mas pela cultura que ela revela. Capital respeitado gera mais capital. Capital hostilizado foge, se esconde ou simplesmente deixa de existir. E quando não existe mais capital, não existe mais dividendo, não existe mais salário, não existe mais futuro, só existe discurso. E discurso, como se sabe, não paga aposentadoria de ninguém.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.