O caso é simples antes de ficar complicado pela narrativa. Um cidadão americano, voluntário religioso, foi servir num dos buracos mais perigosos do planeta, contraiu Ebola, está em tratamento. Fim do fato. O que veio depois do fato é que merece a lupa, porque a Bloomberg, a CNN e a metade dos analistas de Davos correram para amarrar o vírus à decisão do governo Trump de desmontar a USAID, como se a febre hemorrágica fosse uma criatura politicamente educada que só ataca países que cortaram verba de cooperação internacional. Quer dizer, o sujeito pegou a doença porque foi até onde a doença está, não porque um burocrata em Washington perdeu o emprego.

Vale lembrar o que era de fato a USAID, que agora virou santa retroativa. Uma máquina de bilhões de dólares que financiava ONG amiga, consultoria internacional, programa de gênero em vilarejo africano, treinamento de jornalista no Leste Europeu, pesquisa de comportamento sexual na Indonésia, tudo no mesmo balaio chamado de ajuda humanitária. Uma parte ínfima daquele dinheiro chegava a quem efetivamente cuida de doente. O resto sustentava um ecossistema de consultores que voavam em executiva, hospedavam em hotel cinco estrelas e produziam relatórios em PDF que ninguém lia. Cortar isso não é crueldade, é higiene. Mas higiene não dá manchete, então a manchete escolheu o missionário.

Olha, é instrutivo observar que o tratamento real, o soro experimental, o protocolo de isolamento, o leito de UTI especializado, tudo isso existe porque alguém, em algum momento, teve liberdade para inventar, lucrar e errar com seu próprio dinheiro até acertar. Quem segura o paciente vivo hoje é o laboratório privado que correu o risco, não a agência federal que distribuía panfleto. E mais curioso ainda, foi um missionário, um civil voluntário movido por convicção pessoal, quem estava lá em campo. Não funcionário público de carreira, não diplomata com adicional de insalubridade, não consultor da ONU com per diem em dólar. Um homem comum que decidiu, por conta e risco, fazer o que o aparato bilionário do Estado anunciava fazer e raramente fazia.

Aqui mora a inversão moral do espetáculo. A imprensa nos quer convencidos de que sem o Estado intermediando, financiando, certificando e auditando a caridade, a caridade morre. Como se a humanidade só tivesse aprendido a cuidar dos seus depois que Washington inventou um departamento para isso em 1961. As ordens religiosas atravessam continentes tratando leprosos há séculos, médicos sem fronteiras nasceram brigando justamente contra a politização da ajuda, e nada disso depende de orçamento aprovado pelo Congresso americano. O que depende do orçamento é a estrutura paralela de aproveitadores que aprendeu a falar a língua da compaixão enquanto enche o próprio bolso.

E tem o detalhe que ninguém quer mencionar. Surto de Ebola no Congo não é tragédia inédita, é fenômeno recorrente, e os surtos anteriores também aconteceram com a USAID em pleno funcionamento, com bilhões irrigando a região, com gestores graduados e relatórios anuais coloridos. O vírus continuou matando, porque vírus não responde a comunicado de imprensa. O que mudou agora foi a oportunidade narrativa, não a realidade epidemiológica. Quando uma agência é desmontada, todo evento ruim posterior é convocado como testemunha de acusação, mesmo que o evento aconteça por razões completamente alheias ao corte. É truque velho de quem perdeu o emprego no andar de cima e precisa achar culpado lá embaixo.

Me diz uma coisa, se a salvação da humanidade dependesse mesmo da existência ininterrupta de uma agência específica do governo americano criada nos anos sessenta, como é que a espécie sobreviveu aos quatro mil anos anteriores? A resposta incomoda porque é simples. Quem cuida de doente é quem está disposto a cuidar de doente, com seu tempo, seu dinheiro, sua coragem e sua fé. O resto é coreografia de gente que confundiu compaixão com orçamento e agora chora a perda do próprio salário fantasiada de luto pelos pobres do mundo. O missionário pegou Ebola servindo. Os burocratas pegaram microfone reclamando. Dá para ver de longe quem realmente se importa.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.