Frankfurt vai repetir nesta quinta-feira o ritual mais previsível da liturgia monetária contemporânea. Os senhores do euro vão sentar à mesa, fazer cara de quem está pensando muito, segurar a taxa em 2% e atribuir a cautela à "incerteza geopolítica" gerada pela guerra do Irã. É a desculpa do mês. No mês passado era a transição energética. Antes disso, foi a pandemia, a Ucrânia, a cadeia logística, o clima, a China. Note o padrão: a culpa é sempre exógena, sempre conveniente, sempre algo que o burocrata do BCE não controla. Da impressora, que ele controla com o dedo no botão, jamais se fala.

Olha, é preciso ter um certo desplante para apresentar uma decisão de não fazer nada como se fosse coragem analítica. O que está em jogo aqui não é prudência, é paralisia disfarçada de prudência. O Velho Continente passou os últimos quinze anos enchendo de liquidez um sistema bancário moribundo, comprando dívida soberana de país falido como se fosse colecionador de selos, segurando juros em território negativo durante uma fase inteira da história econômica recente, e agora se surpreende que o organismo esteja viciado. Tirar a heroína do dependente provoca crise de abstinência. A solução, dizem os doutores de Frankfurt, é manter a dose constante e culpar o tempo lá fora.

Quer dizer, a guerra do Irã é uma tragédia humana real e tem efeitos reais sobre o preço do petróleo, sobre rotas marítimas, sobre prêmios de risco. Ninguém nega o fato concreto. Mas usar Ormuz como álibi para uma estagnação monetária que precede em muito o primeiro disparo iraniano é o tipo de truque retórico que só funciona com leitor distraído. A inflação europeia não nasceu no Golfo Pérsico. Nasceu nos balanços do próprio BCE, nos trilhões de euros conjurados do nada para socorrer governos que gastam mais do que arrecadam e bancos que emprestaram pior do que deviam. A guerra apenas fornece a fumaça que esconde o incêndio doméstico.

Me diz uma coisa, quem ganha com juros artificialmente baixos numa Europa endividada até o pescoço? Não é o aposentado alemão que vê sua poupança virar pó, nem o trabalhador italiano cujo salário compra menos pão a cada trimestre. Ganham os Estados que rolam dívida a custo subsidiado, ganham os bancos sistemicamente importantes que se financiam barato e emprestam caro, ganham os grandes conglomerados que acessam crédito enquanto a padaria da esquina paga spread de mercado emergente. A política monetária europeia é uma transferência silenciosa, contínua e gigantesca dos prudentes para os imprudentes, dos produtivos para os politicamente conectados. E o público acha que é técnico.

O mais cômico é a encenação de unanimidade. Pesquisa entre economistas dá 100% de certeza sobre a decisão. Não há divergência, não há debate, não há sequer espaço para uma voz dissonante sugerir que talvez o problema seja estrutural, e não circunstancial. Quando todo mundo concorda numa instituição cujo trabalho é justamente exercer juízo em meio a incerteza, é porque o juízo foi terceirizado para a inércia. Banco central que nunca surpreende deixou de ser banco central; virou cartório. E cartório não combate inflação, apenas registra a corrosão.

A verdade que ninguém em Frankfurt quer pronunciar é que a Europa precisa de juros muito mais altos para limpar a cadeia de alocações erradas que a década passada produziu, e ao mesmo tempo não pode subir os juros porque metade da Eurozona quebra se o custo do dinheiro voltar ao patamar histórico normal. Estão presos numa armadilha que eles próprios construíram, parafuso por parafuso, e a guerra do Irã é a tampa pintada de verde colocada em cima do buraco para que ninguém olhe para baixo. Quando esta tampa cair, e ela vai cair, o estrago será imputado a qualquer coisa menos à mão que mexeu na alavanca durante todos esses anos.

Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.