A economia indiana cresceu 7,8% no primeiro trimestre, número que faria qualquer ministro da Fazenda brasileiro engasgar com o cafezinho da reunião do Copom. Não é acaso, não é estatística maquiada, não é o efeito de uma commodity dançando no mercado internacional. É o resultado acumulado de uma escolha civilizacional que a Índia fez nos anos 1990, quando finalmente se cansou do socialismo nehruviano que mantinha um povo inteiro racionando arroz enquanto a burocracia distribuía licenças como se fossem hóstias sagradas. Abriram a economia, cortaram tarifas, demoliram o famoso License Raj, e o resultado está aí, crescendo a um ritmo que dobra a renda per capita a cada década.
Olha, é preciso ter coragem de comparar. O Brasil cresceu pouco mais de 2% no mesmo período, e os palpiteiros do mercado já estão batendo palmas como se fosse milagre. Enquanto isso, a Índia tem população três vezes maior, infraestrutura sofrível, problemas de casta, tensões religiosas, vizinho nuclear hostil e ainda assim cresce quatro vezes mais. A diferença não está no PIB inicial nem na sorte geográfica. Está no fato simples de que lá, abrir uma empresa não exige doze certidões, três advogados e uma reza para São Judas. Aqui, o empreendedor passa mais tempo preenchendo formulário do que produzindo riqueza, e ainda chamam isso de ambiente de negócios.
Quer dizer, a receita indiana é tão antiga quanto óbvia, e por isso mesmo os doutores de Brasília fingem que não entendem. Quando o Estado para de tentar adivinhar o que milhões de pessoas querem comprar, vender, produzir e investir, essas pessoas, espantosamente, descobrem sozinhas. O preço deixa de ser um decreto e volta a ser informação. O empresário deixa de ser réu presumido e volta a ser criador de emprego. O consumidor deixa de ser tutelado e volta a ser soberano. Não tem mistério, não tem fórmula mágica, não tem nada que um estudante de primeiro semestre não consiga entender, desde que não tenha sido lobotomizado pela cartilha desenvolvimentista.
E siga o dinheiro, porque ele sempre conta a verdade. Na Índia que cresce, o capital privado flui para tecnologia, manufatura, infraestrutura, farmacêutica. Apple monta iPhone em Tamil Nadu, Google instala data center em Gujarat, fundos soberanos do mundo inteiro disputam ativos indianos. No Brasil que rasteja, o dinheiro flui para títulos públicos a juros estratosféricos, financiando a farra fiscal que paga BNDES subsidiando amigo do rei, Bolsa Família eleitoral, ministério inventado para acomodar partido de coalizão. Lá o capital constrói fábrica, aqui o capital rola dívida. Lá o Estado se encolhe para deixar a sociedade respirar, aqui o Estado infla para sufocar quem produz e premiar quem rapina.
Os defensores do nosso modelo dirão que a Índia tem desigualdade, miséria, problemas. Tem. Tinha muito mais antes de abrir a economia, e é exatamente o crescimento que está tirando centenas de milhões da pobreza absoluta nas últimas três décadas. Nenhum programa social, nenhum bolsa coisa nenhuma, nenhum cheque assinado por burocrata jamais tirou tanta gente da miséria quanto o simples ato de deixar as pessoas trabalharem, produzirem e trocarem livremente. Esta é a verdade que dói nos corações de quem ganha a vida desenhando programa redistributivo, porque admiti-la significa admitir que sua função é parasitária.
O Brasil de 2026 continua com a mesma doença de sempre, a fé inabalável de que o próximo plano, o próximo pacote, o próximo arcabouço, a próxima reforma maquiada vai destravar o crescimento. Não vai. Não vai porque o problema nunca foi falta de plano, foi excesso de planejador. Enquanto a Índia cresce arrumando a casa, nós discutimos que cor pintar a sala de uma casa que está caindo. A diferença entre os dois países cabe em uma frase: a Índia descobriu que o Estado é o problema, o Brasil ainda acha que o Estado é a solução.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.