O dado saiu e a manchete veio com a histeria de praxe, PIB irlandês desaba 12,1%, como se a ilha tivesse sido bombardeada. Só que, no mesmo trimestre, a economia doméstica modificada, aquela que mede o que os irlandeses realmente produzem, consomem e investem dentro das próprias fronteiras, cresceu 0,6%. Quer dizer, o país está melhor e pior ao mesmo tempo, dependendo de qual planilha você lê. E isso deveria envergonhar profundamente quem trata o PIB como termômetro infalível da vida econômica de uma nação.
A explicação é prosaica e devastadora. A Irlanda virou, há décadas, paraíso fiscal sofisticado para gigantes farmacêuticas e de tecnologia que registram lá receitas geradas no mundo inteiro. Quando uma dessas multinacionais decide reorganizar sua estrutura societária, transferir propriedade intelectual entre subsidiárias ou simplesmente exportar menos remédio num trimestre, o PIB irlandês sobe ou desce como elevador de prédio mal calibrado. Nada disso tem relação com o padeiro de Dublin, com o agricultor de Cork, com o pedreiro de Galway. É contabilidade global vestida de estatística nacional.
Aqui mora o ponto que ninguém quer ver. Décadas de devoção quase religiosa a um número agregado criaram a ilusão de que governos podem pilotar economias como se fossem máquinas. Imprime-se moeda olhando o PIB, sobe-se juros olhando o PIB, faz-se reforma fiscal olhando o PIB. Mas o PIB é uma soma grosseira que mistura o que importa com o que não importa, que confunde valor real com fluxo contábil, que trata gasto público financiado por dívida como se fosse riqueza criada. Quando o instrumento é torto, toda decisão tomada com base nele sai torta também.
O caso irlandês é particularmente saboroso porque expõe a captura na sua forma mais pura. O país não cresceu nem encolheu, o que mudou foi a estratégia tributária de meia dúzia de conselhos de administração em Cupertino, Basileia e Nova Jersey. Bilhões de euros aparecem e somem dos livros nacionais conforme advogados tributaristas otimizam estruturas. E enquanto isso, o cidadão comum continua sua vida, com salário real subindo modestamente, consumo aguentando, e nenhuma relação concreta com o pânico estatístico do dia.
Há uma lição maior aqui, e ela vale para o Brasil também. Toda vez que um ministro brasileiro vem à imprensa comemorar décimos de PIB ou explicar contração trimestral, lembre-se de Dublin. Lembre-se de que esses números são construções, escolhas metodológicas, agregações que escondem mais do que revelam. O que importa de verdade é se o pão está mais caro, se o emprego paga conta, se a moeda guarda valor, se o filho consegue um futuro melhor que o pai. Nada disso aparece num número só, e quem promete pilotar a economia olhando para um único mostrador está mentindo ou se enganando.
A verdade incômoda é que economias não são pilotadas, são vividas por milhões de pessoas tomando bilhões de decisões com informação imperfeita. Toda tentativa de reduzir esse caos vital a um indicador único e depois manobrar o indicador com canetadas produz exatamente o teatro que vimos esta semana na Irlanda. Estatística pura, sofrimento ou alegria nenhum. A economia real, aquela que importa, segue seu curso. O resto é barulho de planilha.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.