O Edinburgh Worldwide Investment Trust, veículo britânico de capital fechado especializado em empresas de crescimento globais, acaba de comunicar ao mercado que pretende lançar ofertas de recompra das próprias ações. Traduzindo para quem não fala o dialeto das corretoras, o fundo vai pegar o dinheiro que sobra no caixa e oferecer aos acionistas a chance de cair fora com o bolso mais cheio do que quando entraram. Para quem acompanha o setor há tempo, é um atestado público, emoldurado e assinado em cartório, de que o desconto entre o preço de mercado e o valor real dos ativos ficou indecente demais para continuar sendo ignorado.
Olha, não existe sinal mais eloquente de humildade corporativa do que uma recompra bem calibrada. Todo gestor quer dizer ao cliente que tem a fórmula secreta do crescimento infinito, que cada libra entregue à sua administração vai render frutos dignos de parábola bíblica. Quando o mesmo gestor se vira e diz, em vez disso, "tome de volta o seu dinheiro, porque comprar minhas próprias cotas hoje rende mais do que qualquer coisa que eu conseguiria achar lá fora", ele está confessando algo que a propaganda institucional jamais confessaria. O mercado, com seus preços nus e crus, sabe mais do que o comitê de investimentos com suas planilhas iluminadas.
E aqui mora a beleza silenciosa do episódio. Enquanto governos pelo mundo inteiro acreditam piamente que podem alocar capital por decreto, via bancos de fomento, subsídios a setores "estratégicos" e políticas industriais desenhadas em salas fechadas por burocratas que nunca arriscaram um centavo próprio, um fundo privado faz o oposto exato. Reconhece que não sabe tudo, que o próprio mercado está precificando melhor do que ele a realidade, e devolve o recurso a quem é dono legítimo. Chama-se respeito pela propriedade alheia, conceito tão antigo quanto esquecido em Brasília, em Bruxelas e em quase toda capital que se preze.
Quer dizer, compare o gesto. De um lado, o gestor privado que enxerga oportunidade melhor na própria cota subvalorizada e age com a rapidez de quem responde com o próprio patrimônio. Do outro, o planejador estatal que, diante do mesmo sinal de mercado, faria três audiências públicas, um comitê interministerial, uma consulta popular e terminaria anunciando um programa de estímulo ao setor que já estava gordo demais. A diferença entre um sistema que aprende e um sistema que finge aprender está inteira nesse contraste. Preço é informação condensada; quando você ignora o preço, está ignorando o conhecimento de milhões de pessoas que você jamais vai conseguir replicar numa reunião.
Me diz uma coisa, quantas vezes você já ouviu um ministro da Fazenda anunciar que vai "devolver recursos à sociedade porque o governo não está conseguindo investir bem o dinheiro do contribuinte"? Exato, nunca. Porque o incentivo é rigorosamente o oposto. Quanto mais dinheiro sob controle, mais poder, mais cargos, mais clientela política. O fundo privado perde cliente quando entrega mal, e por isso se corrige. O Estado perde dinheiro do contribuinte quando entrega mal, e por isso pede mais. Os dois sistemas operam sob lógicas contrárias e produzem resultados contrários, e qualquer pessoa minimamente honesta consegue ver qual dos dois historicamente gerou prosperidade e qual gerou ruína disfarçada de bondade.
Resta, então, a lição que o comunicado discreto de Edimburgo entrega sem alarde para quem tem ouvidos. Quando o capital é livre para voltar ao dono original, a economia respira. Quando é aprisionado em projetos eleitoreiros, em estatais deficitárias, em subsídios cruzados que ninguém entende, a economia sufoca em silêncio, de olhos vendados, aplaudida pelas mesmas plateias que depois reclamarão do empobrecimento geral. Devolver dinheiro ao acionista é um ato subversivo num mundo acostumado a confiscá-lo. E é exatamente por isso que vale a pena reparar nele.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.