Existe uma espécie de político que só aparece para dizer ao colega que ele está atrapalhando. Nunca para propor, nunca para denunciar, nunca para confrontar o poder com ideias ou com coragem. Aparece para reclamar do vizinho enquanto a casa pega fogo. Ciro Nogueira, presidente do PP, praticou este esporte com desenvoltura ao declarar que Eduardo Bolsonaro "atrapalha" e que a direita precisa focar em Lula. A frase seria razoável se não viesse de um operador de partido que passou os últimos anos demonstrando que "focar em Lula" é coisa que se faz em entrevista, não em votação.

O problema não é Eduardo Bolsonaro. O problema não é Ciro Nogueira. O problema é estrutural, e quem conhece a história sabe que não é novo. Toda vez que uma oposição perde a substância ideológica e vira coalizão de egos e cargos, o resultado é previsível: ela começa a brigar com os próprios aliados com uma ferocidade que jamais reservou ao adversário. O Partido Trabalhista britânico fez isso por anos na oposição a Thatcher. Os republicanos americanos fizeram durante boa parte dos anos Clinton. O padrão é sempre o mesmo. Quando não há programa coerente, o que sobra é rixa pessoal. E rixa pessoal gera clique, gera manchete, gera audiência, mas não gera governo.

Me diz uma coisa: quem se beneficia quando a direita brasileira transforma cada semana em um episódio de reality show com votação para eliminação? A resposta está na conta bancária de quem assina a folha de pagamento do Estado. O governo Lula, neste momento, não precisa de maioria parlamentar robusta para aprovar o que quer. Precisa apenas que a oposição esteja ocupada com ela mesma. E está. Devotamente. Com a disciplina de um monge tibetano. Enquanto pautas passam, enquanto o Banco Central opera sob pressão, enquanto o gasto público cresce com a velocidade de um incêndio em agosto, a manchete da oposição é sobre se Eduardo Bolsonaro "atrapalha". Atrapalha o quê, exatamente? Qual o projeto que está sendo atrapalhado? Alguém viu este projeto? Tem endereço?

O aviso de Nogueira tem o sabor amargo das repreensões que só fazem sentido se a pessoa que repreende tiver autoridade moral para tanto. Um partido que já governou junto com o PT, que tem histórico de negociações com o Planalto de qualquer cor, que acumula mais emendas parlamentares do que discursos de oposição, não está em posição confortável para dar lição de foco estratégico. É o tipo de conselho que soa como o ladrão repreendendo o estelionatário: tecnicamente correto, moralmente vazio. O leitor que não sabe disso aprende em cinco minutos de pesquisa. E o leitor que sabe não consegue levar a sério o sermão.

A questão real é mais funda e mais triste. A direita brasileira chegou à oposição sem ter resolvido uma pergunta elementar: o que ela quer para o Brasil além de não ser o PT? Oposição reativa, construída sobre negação, não tem substância para aguentar turbulência interna porque não tem nada que una além do inimigo comum. Quando o inimigo está no poder e parece confortável, o grupo se fragmenta porque o único cimento era o ódio ao adversário, e o ódio sozinho não constrói nada, nem partido, nem governo, nem civilização. Coligações sem ideias se dissolvem sob o peso da própria vaidade, e o que resta é exatamente o espetáculo que estamos assistindo: líderes chamando outros líderes de "obstáculo" em entrevistas para portais financeiros.

No fim, o diagnóstico de Ciro Nogueira pode estar certo no conteúdo e ser inútil na prática. Sim, a direita deveria focar no governo. Sim, as brigas internas custam caro eleitoralmente. Mas focar exige saber em que focar, o que atacar, com qual argumento, com qual proposta alternativa. Focar exige substância. E substância não se improvisa em coletiva de imprensa. Enquanto a direita não responder o que quer construir além de derrubar Lula, ela continuará sendo o melhor aliado involuntário que o governo tem, brigando consigo mesma com uma competência que nunca demonstrou na batalha de verdade.

Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.