A Elders Ltd, conglomerada australiana que vende de fertilizante a gado, anunciou crescimento expressivo no primeiro semestre de 2026, e o detalhe que ninguém vai sublinhar nas manchetes é o seguinte, esse resultado veio de um país onde o produtor rural ainda consegue acordar de manhã, decidir o que plantar, para quem vender e a que preço, sem precisar de uma autorização carimbada por quatro ministérios e referendada por uma assembleia de ativistas urbanos que nunca viram uma colheitadeira na vida. Olha, isso não é detalhe, isso é a coisa toda.

Enquanto governos do hemisfério inteiro discutem como tributar o boi pelo arroto, como impedir o agricultor brasileiro de exportar via barreira fitossanitária europeia disfarçada de preocupação ambiental, e como financiar com dinheiro do contribuinte a próxima safra de consultores em sustentabilidade, uma empresa que faz o trabalho sujo de abastecer fazendeiros com insumo e logística entrega lucro real, em dólar real, para acionista real. Quer dizer, alguém ainda produz. E quando alguém ainda produz num ambiente minimamente livre, o resultado aparece no balanço, não na coletiva de imprensa do palácio.

Vale a pena observar o que não está sendo dito nessa notícia. A Elders não cresceu porque o governo australiano lançou um plano nacional decenal de fomento ao agronegócio com sigla simpática e logo colorido. Cresceu porque preço de commodity subiu, porque produtor australiano respondeu ao incentivo de mercado, porque a empresa soube ler a demanda asiática por proteína e porque, fundamentalmente, ninguém em Camberra resolveu congelar margem de revenda de fertilizante para combater a inflação que o próprio banco central fabricou imprimindo moeda durante a pandemia. Cada centavo de lucro daquela empresa é a fotografia em tempo real de milhões de decisões dispersas que nenhum ministério jamais conseguiria coordenar nem se contratasse os mil melhores doutores em economia do planeta, e olha que já tentaram, deu no que deu, em fila para pão.

Me diz uma coisa, por que o Brasil, que tem solo, clima, água, mão de obra e o maior potencial agropecuário do hemisfério ocidental, precisa olhar para a Austrália com inveja? A resposta cabe num único parágrafo. Porque aqui o produtor paga imposto sobre o insumo, imposto sobre o transporte, imposto sobre a venda, contribui para fundo de pesquisa que financia tese sobre identidade de gênero do soja, atravessa licenciamento ambiental que demora mais que a gestação do animal, e quando finalmente consegue exportar, descobre que a União Europeia inventou uma nova certificação de rastreabilidade que custa o equivalente a três safras. O agronegócio brasileiro cresce apesar do Estado, não graças a ele, e essa é uma das poucas coisas que separa o país do colapso total.

A trilha do dinheiro nesse caso é límpida e quase didática. Onde existe propriedade privada respeitada, contrato cumprido, moeda que não derrete na mão do poupador e governo que entende seu papel como árbitro e não como jogador, a riqueza brota da terra com uma naturalidade que parece milagre para quem só viu o oposto. Onde existe planejamento estatal, controle de preço, subsídio cruzado, taxação confiscatória e burocrata achando que entende de produção rural melhor que o sujeito que vive disso há quatro gerações, o que brota é fila, desabastecimento e currículo de exilado. A Austrália não é paraíso, nem é a fronteira do liberalismo, mas ainda preserva o suficiente de respeito à atividade produtiva para que uma empresa centenária consiga lucrar honestamente vendendo o que o mundo quer comprar.

O resultado da Elders deveria ser leitura obrigatória nos gabinetes em Brasília, e seria, se Brasília quisesse aprender alguma coisa que não fosse como aumentar a base de arrecadação. A lição cabe em uma frase, deixem o produtor em paz e ele vos alimentará, atrapalhem o produtor e vocês comerão discurso.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.