Pois então, no dia 27 de maio a Electrica vai cumprir o ritual trimestral de jogar números na mesa, e o noticiário financeiro já se prepara para repetir o jargão de sempre, EBITDA ajustado, guidance, margem operacional, todo aquele vocabulário cuidadosamente construído para fazer parecer que existe ciência onde há, no fundo, escolha contábil. A empresa é uma distribuidora de energia romena com participação estatal relevante, e isso muda tudo. Quando o acionista controlador é o governo, ou quando o governo é cliente, regulador e árbitro ao mesmo tempo, o balanço deixa de ser uma fotografia da realidade econômica e passa a ser um quadro pintado a quatro mãos pelo executivo e pelo ministério.

Olha, o setor elétrico em qualquer canto do mundo é o paraíso do capitalismo de compadrio. Tarifa é definida por agência reguladora, subsídio cruzado é definido por lei, e o consumidor final paga sem nunca saber direito o que está pagando. Quando a empresa vai bem, o discurso é eficiência empresarial e modernização. Quando vai mal, a culpa é da seca, do câmbio, da guerra na Ucrânia, da política tarifária do governo anterior. A linha que separa o lucro do prejuízo numa distribuidora de energia é, na maior parte das vezes, uma canetada burocrática, não um fato econômico.

Me diz uma coisa, alguém ainda acredita que o resultado de uma estatal travestida de empresa de capital aberto reflete a sua produtividade real? O custo de capital dela é artificialmente baixo porque o Tesouro romeno é o avalista implícito. A previsibilidade de receita vem de um contrato regulatório que blinda o faturamento. Os investimentos pesados são financiados com dinheiro que ninguém perguntou se podia tomar emprestado, porque o consumidor cativo paga via tarifa o que o acionista deveria pagar via aporte. Isso não é mercado, é uma simulação de mercado com cenário de teatro e atores contratados.

E aqui mora a parte que ninguém quer enxergar. Por trás de cada divulgação trimestral existe uma engrenagem invisível que sustenta a coreografia. Há os bancos que cobram comissão para coordenar emissões de dívida. Há as consultorias que vendem relatórios encomendados para justificar reajuste tarifário. Há os fundos institucionais que precisam que a ação suba para fechar o trimestre deles. Há o sindicato que negocia reposição salarial em cima do faturamento bruto, não do lucro real. Cada um desses atores tem interesse legítimo no número que vai aparecer no dia 27. O consumidor, que paga a conta de luz, não tem assento nenhum nessa mesa.

O que se vê é o relatório com gráficos coloridos e o teleconferência com analistas perguntando sobre payout. O que não se vê é a fatura inflada que o cidadão romeno paga há anos, é o investidor privado que jamais conseguiria competir contra uma empresa subsidiada pelo Estado, é a inovação que não acontece porque o monopólio regulado não tem incentivo para inovar. A divulgação de resultados é o palco. O bastidor é onde a transferência de riqueza acontece, silenciosa, mês após mês, na conta de cada casa que acende a luz.

Anote a data, observe os números, mas não se deixe hipnotizar pelo show. O dia 27 vai trazer um balanço, e o balanço vai parecer uma empresa. Vai trazer projeções, e as projeções vão parecer um plano de negócios. Vai trazer dividendos, e os dividendos vão parecer recompensa ao acionista. Mas, no fundo, o que estará sendo divulgado é apenas mais um capítulo da velha história em que o risco é coletivizado e o ganho é privatizado, com a bênção do regulador e a passividade do contribuinte. Empresa estatal não tem balanço, tem comunicado oficial com pretensão de contabilidade.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.