A matéria do Valor apresenta a eletrofita como novidade: uma fita condutora autoadesiva que dispensa quebrar parede, abrir rasgo, passar eletroduto e refazer reboco. Cola na parede, recebe o acabamento e pronto, tem tomada nova sem o canteiro de guerra que toda reforma vira neste país. A reportagem vende como avanço técnico. E é. Mas a pergunta honesta, aquela que nenhum colunista de caderno de economia faz, é outra: por que um produto que existe há tanto tempo no mercado europeu e americano demora tanto para chegar ao consumidor brasileiro em escala? A resposta não está no laboratório, está no cartório.
Observe o que não se vê. Cada metro quadrado de parede quebrada no Brasil é um pequeno ecossistema econômico protegido. Tem o pedreiro, o eletricista, o ajudante, o saco de cimento, o caminhão de entulho, a loja de material, o engenheiro que assina a ART, o conselho que cobra a anuidade, a prefeitura que cobra o alvará, o sindicato que organiza a categoria e, acima de tudo, a norma técnica que diz como tem que ser feito, por quem tem que ser feito, com que espessura de eletroduto e qual bitola de fio. Nada disso é, em si, ruim. O problema é quando o conjunto se transforma numa muralha contra qualquer técnica que simplifique o processo. Simplificar, aqui, é ameaça. Inovação barata corta faturamento de alguém que já está instalado, e quem já está instalado tem assento na mesa que escreve a norma.
Siga o dinheiro e o quadro fica claro. Toda inovação que reduz mão de obra, material e tempo de obra encontra resistência proporcional ao número de intermediários que vivem da complexidade antiga. Não é conspiração, é incentivo. O eletricista que cobra três dias de serviço não tem nenhum estímulo para recomendar um produto que resolve em duas horas. A loja que vende vinte metros de eletroduto e cinco caixas de tomada não tem interesse em empurrar uma fita que substitui tudo isso por um único item. O conselho profissional que vive de exigir projeto técnico para cada tomada adicional não tem motivo para facilitar o acesso de leigos a soluções plug and play. O resultado é que o consumidor, o sujeito que paga a conta no fim, descobre a tecnologia dez, quinze anos depois de ela estar consolidada lá fora, e descobre pela matéria do jornal, não pelo eletricista do bairro.
Isso se chama custo regulatório, e ele é invisível porque ninguém emite boleto com esse nome. Aparece no preço final do metro quadrado construído, no prazo da reforma, no pó respirado pela família durante uma semana, na dor de cabeça do síndico que tem que avisar o prédio inteiro que vai ter marretada das oito às cinco. Aparece na decisão da senhora aposentada que desiste de trocar a instalação velha porque o orçamento veio em oito mil reais quando deveria ser oitocentos. Aparece, sobretudo, na informalidade: como o caminho legal é caro e demorado, metade do país faz gambiarra clandestina com eletricista amigo, sem nota, sem garantia, sem responsabilidade técnica nenhuma. A regulação pesada, vendida como proteção ao consumidor, empurra o consumidor exatamente para o lugar onde ele fica desprotegido.
A eletrofita vai se popularizar no Brasil, é inevitável, como foi inevitável a chegada do aplicativo de transporte, da hospedagem por temporada, do banco digital e de toda tecnologia que driblou guildas protegidas. Mas vai entrar arranhando, contra pareceres técnicos encomendados, contra notas de associações profissionais preocupadas com a segurança do cidadão, contra tentativas de enquadrar o produto em categoria regulatória que exija laudo, selo, certificação redundante e, claro, a contratação obrigatória do profissional habilitado que, por coincidência, é o mesmo que hoje cobra pela quebradeira. A cerca regulatória não foi construída para proteger o consumidor, foi construída para proteger o arranjo. Dá para derrubar a cerca, mas tem que saber primeiro quem plantou, por que plantou e quem come do fruto que ela produz.
A notícia boa é que o mercado, quando sobra um fio de oxigênio, sempre vence a norma. O produto é bom, resolve, é mais barato, mais limpo, mais rápido, e o brasileiro, quando vê algo que funciona, adota. A notícia ruim é que levamos décadas para chegar a esse ponto em quase tudo, e o atraso é pago no boleto de cada família que reformou a casa entre 2005 e 2026 na base da marreta. A próxima eletrofita já existe, em algum nicho, esperando para entrar. A pergunta é quantos anos o arranjo conseguirá segurá-la desta vez.
Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.