A Eli Lilly vai subir ao palco do encontro anual da Associação Americana de Diabetes para apresentar resultados de fase 3 do Foundayo e da retatrutida, e o anúncio sozinho mexeu com o humor de Wall Street antes mesmo de qualquer slide ser projetado. A retatrutida é a tal molécula tri-agonista que promete superar a semaglutida e a tirzepatida no jogo do emagrecimento, e o Foundayo entra na briga do diabetes tipo 2 com a pretensão de redesenhar o protocolo padrão. Tradução para quem não acompanha o setor: a Lilly está prestes a arrancar mais alguns bilhões de dólares de valor de mercado com base em moléculas que custaram uma década e algumas dezenas de bilhões para chegar ali.
E é exatamente aqui que a conversa precisa sair do release corporativo e cair na realidade. Cada comprimido desses só existe porque alguém, em algum momento, apostou capital de risco numa promessa que poderia muito bem ter virado pó. O laboratório que acerta uma molécula em mil tentativas precisa cobrar o suficiente para pagar as novecentas e noventa e nove que falharam, mais o exército de regulação, mais os ensaios clínicos, mais a fila de burocratas que carimbam papel em três continentes. Quem grita contra o preço do remédio nunca para para pensar no que se vê e no que não se vê: vê a pílula cara na prateleira, não vê o cemitério de moléculas mortas que sustenta a próxima cura.
Olha, o detalhe interessante é que o congresso da ADA virou, na prática, a passarela onde se decide qual gigante vai mandar no mercado de obesidade pelos próximos cinco anos. Lilly e Novo Nordisk travam uma guerra que já vale mais que o PIB de país médio, e nessa guerra quem ganha é o paciente lá na ponta, que enfim tem alternativa ao discurso eterno do "feche a boca e faça caminhada". A inovação não brotou de comitê ministerial nem de plano quinquenal de saúde pública. Brotou de duas empresas privadas competindo ferozmente pelo bolso de quem está disposto a pagar.
Agora me diz uma coisa: por que esse mesmo remédio, que vai estar disponível em farmácia americana semanas depois da aprovação, leva anos para atravessar a fronteira brasileira? A resposta tem nome e endereço. Chama-se Anvisa, chama-se carga tributária sobre medicamentos, chama-se reserva de mercado disfarçada de "proteção ao consumidor". Cada camada regulatória adicional é uma porta de pedágio onde alguém cobra para deixar a inovação passar, e o pedágio, no fim, sai do bolso do diabético que precisa do remédio ontem. O burocrata que segura o registro acha que está protegendo a população; está, na verdade, condenando-a à versão antiga do tratamento por mais uma temporada.
Há ainda o capítulo do SUS, que vai gastar fortunas comprando a geração anterior dessas moléculas quando a próxima já estiver no mercado privado americano, porque o ciclo de incorporação de tecnologia da Conitec opera na velocidade de uma carroça empurrada na lama. E quem paga essa conta dupla, do remédio velho comprado caro mais do imposto que financia a máquina que demora a aprovar o novo, é o mesmo contribuinte de sempre, aquele sujeito que nunca foi consultado se preferia menos burocracia e mais acesso. A retatrutida vai virar manchete, vai mover ação na bolsa, vai mudar o tratamento de milhões. No Brasil, vai virar promessa, fila, ação judicial e, eventualmente, escândalo de superfaturamento na licitação.
O recado das duas moléculas que a Lilly leva à ADA é mais filosófico do que farmacêutico. Mostra, mais uma vez, que a doença humana mais antiga, o desejo de viver melhor e mais magro, foi resolvida não por decreto, não por programa social, não por ministério da saúde, mas por capital privado correndo atrás de lucro num ambiente onde o lucro ainda é permitido. Onde o lucro é demonizado, a inovação some. Onde o lucro é perseguido a tiros de regulação, o paciente é quem leva o tiro de raspão.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.