Há uma diferença fundamental entre um movimento político fundado em princípios e uma máquina construída ao redor de uma pessoa. O primeiro sobrevive à saída de qualquer líder, porque o que une seus membros é uma ideia, não uma fisionomia. O segundo entra em colapso quando o rosto que estampa a bandeira some do horizonte, porque sem ele resta apenas o vazio institucional disfarçado de legado. O PT, quarenta e tantos anos depois de sua fundação, acaba de confessar publicamente em qual das duas categorias se encaixa.
A declaração do presidente do partido de que encontrar uma liderança para substituir Lula "não é simples" deveria envergonhar qualquer militante que ainda acredita que o petismo é uma causa. Uma organização política séria, com décadas de existência, com passagens pelo governo federal, com quadros formados em universidades públicas e privadas, com redes sindicais, movimentos sociais e estrutura capilar em todo o território nacional, e o melhor que seu presidente consegue dizer é que não sabe quem pode ocupar o lugar do chefe? A afirmação não é uma análise política. É um atestado de dependência patológica.
Mas o raciocínio não para aí, porque raramente para. Edinho Silva foi além e anunciou que sem Lula o Brasil corre risco de "retrocesso e autoritarismo". Quer dizer, a lógica é a seguinte: o país precisa de Lula para não se tornar autoritário, e quem questionar isso é, bem, autoritário. O argumento é uma serpente que morde o próprio rabo, e a elegância com que foi apresentado como alerta democrático revela o grau de sofisticação intelectual que o partido alcançou depois de décadas no poder. Quando um grupo político afirma que a democracia só sobrevive com a presença de um homem específico no comando, este grupo não está defendendo a democracia. Está defendendo o trono.
Siga o raciocínio até o fim e você chega no lugar onde a conversa realmente acontece: 2026 é ano eleitoral, os recursos do Estado estão fluindo, os programas sociais estão sendo anunciados com ritmo de campanha, e o partido que governa precisa que o candidato seja também o incumbente. A narrativa do "insubstituível" não é um diagnóstico honesto sobre a ausência de lideranças, é uma estratégia de campanha embrulhada em papel kraft institucional. Nenhum partido que domina o aparato federal por quatro anos consecutivos, com acesso a ministérios, estatais, fundos públicos e toda a estrutura de comunicação do governo, acorda genuinamente sem quadros capazes de disputar uma eleição. O que falta não é liderança: é conveniência em abrir mão do incumbente.
Olha, a história tem paciência com quem a lê com atenção. Toda vez que um regime, um partido ou um movimento declara que a estabilidade depende da continuidade de uma pessoa específica, o que está sendo dito não é que a pessoa é indispensável. O que está sendo dito é que a estrutura de poder construída ao redor dessa pessoa não sobrevive à alternância. E a alternância, por acaso, é a única coisa que distingue uma democracia de um governo de ocasião com urnas. Quando o partido confunde sua própria sobrevivência com a sobrevivência do país, o problema não é a oposição: o problema é o partido.
A frase-resumo desta história não é "Lula é insubstituível". A frase-resumo é mais antiga e mais honesta: todo poder que não sabe como se renovar não merece ser preservado.
Com informações da InfoMoney. A análise e opinião são do O Algoz.