A Regeneron anunciou que seu ensaio clínico para melanoma não atingiu o endpoint primário, e a reação do mercado foi aquela mistura típica de choque encenado e venda fria. O papel afundou, analistas reescreveram relatórios da véspera, e o noticiário tratou o evento como se fosse acidente meteorológico, algo que cai do céu sem causa nem responsável. Não é. Cada ensaio fracassado é também a fotografia de um sistema que transformou a descoberta de remédios numa corrida de obstáculos onde o obstáculo principal não é a biologia do câncer, é o balcão regulatório.

Olha, o detalhe que escapa ao leitor distraído é o custo de um ensaio dessa magnitude. Centenas de milhões de dólares queimados para descobrir que a hipótese não se sustentou, e o paciente com melanoma metastático, aquele que tem seis meses de vida e está implorando por qualquer coisa que aumente a probabilidade de ver o neto crescer, continua esperando que um comitê em Maryland decida se ele tem o direito de tentar. Quer dizer, o sujeito vai morrer de qualquer jeito, mas precisa morrer obedecendo o protocolo. É essa a moral da história que o mercado financeiro engole sem mastigar.

Me diz uma coisa, quem ganha com um sistema em que apenas gigantes capitalizadas conseguem bancar a maratona burocrática até a aprovação? Resposta óbvia, as próprias gigantes. O custo regulatório virou a muralha que protege oligopólio farmacêutico de qualquer concorrente menor, mais ágil, eventualmente mais criativo. Cada exigência adicional, cada nova fase, cada novo endpoint imposto pelo regulador é um tijolo a mais nessa muralha, e o lobby da indústria estabelecida adora cada tijolo, porque sabe que a startup do laboratório em Boston não vai conseguir pagar a conta. Siga o dinheiro, e a fantasia do regulador protetor desmorona em quinze segundos.

O endpoint primário, esse conceito sagrado, é também uma ficção administrativa. Um único parâmetro estatístico escolhido anos antes decide se uma molécula vive ou morre, ignorando que pacientes diferentes respondem de forma diferente, que sinais secundários podem indicar caminhos promissores, que o conhecimento real sobre o que funciona está disperso entre milhares de oncologistas, biólogos e pacientes. Tudo isso é triturado para caber numa planilha que um comitê vai cruzar com a tabela do protocolo. Nenhum planejador central, por mais titulado, possui o conhecimento que está espalhado pela rede inteira de quem lida com a doença, e essa pretensão de centralizar a sabedoria médica num formulário é a versão hospitalar do velho delírio do Gosplan.

Tem ainda o que não se vê, e o que não se vê aqui é cemitério. Para cada ensaio que falha sob o atual regime de testagem, existem moléculas que nunca foram desenvolvidas porque a estrutura regulatória tornou economicamente inviável investigá-las. Existem terapias adjacentes que poderiam ter sido tentadas em pacientes terminais e não foram, porque o protocolo proíbe. Existem combinações que nunca chegaram à mesa porque ninguém quer arriscar o investimento. O fracasso visível da Regeneron está nos jornais, o fracasso invisível do sistema inteiro está nas estatísticas de mortalidade que tratamos como inevitáveis quando boa parte é fabricada por decreto.

O remédio para o câncer talvez já tenha sido descartado num laboratório que faliu antes da fase três, ou nunca foi testado porque o cálculo do retorno não fechou diante do tamanho do balcão. Enquanto isso seguimos venerando o oráculo regulatório como se ele fosse oráculo, quando é apenas mais um cartório caro vestido de jaleco. A Regeneron erra a aposta dela, e o mercado a pune corretamente, é assim que deve ser. O que não está sendo punido, e deveria, é o arranjo que faz com que apenas players desse tamanho possam errar apostas dessa monta. O câncer é cruel, mas a burocracia que o tutela mata com mais método.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.