A notícia chega embrulhada no papel celofane de sempre, expansão estratégica, sinergia operacional, fortalecimento do portfólio, esse vocabulário de relatório anual que serve para anestesiar acionista e jornalista ao mesmo tempo. A Ensign Group, gigante listada na Nasdaq, acrescentou mais duas unidades de saúde de longa permanência ao seu rebanho, uma em Iowa, outra na Califórnia. Parece negócio entre adultos no mercado livre, e em parte é. Mas só em parte.
Quem entende minimamente como funciona o setor de skilled nursing nos Estados Unidos sabe que essas redes não vivem de cliente pagando do bolso. Vivem de Medicare e Medicaid, dois esquemas federais que despejam dinheiro de contribuinte dentro do caixa dessas empresas com a regularidade de uma torneira aberta. Cada leito ocupado por um idoso é um contrato indireto com o Tesouro americano, e cada aquisição como essa é, no fundo, a compra de um fluxo de caixa garantido pelo governo. Não é capitalismo, é arrendamento de teta estatal com ações negociadas em bolsa.
O que se vê é a manchete bonita, empresa cresce, gera empregos, atende mais idosos. O que não se vê é o mecanismo por baixo. Os reembolsos federais distorcem o preço real do cuidado, criam incentivos para inflar diagnósticos, encorajam consolidação porque escala vira sinônimo de poder de barganha junto ao pagador, que é sempre o mesmo, o governo. O pequeno operador independente, aquele que tocava a casa de repouso da cidadezinha com nome de santo, foi engolido faz tempo. Não perdeu por incompetência, perdeu porque não tinha departamento jurídico para domar o cipoal regulatório que Washington produz em série.
E aí está o ponto que ninguém quer encarar. Quando o Estado se mete a financiar um setor inteiro, ele não democratiza acesso, ele cartelliza a oferta. As mil regrinhas de credenciamento, certificação, auditoria e compliance são exatamente o muro que separa o gigante do pretendente. A Ensign não cresce apesar da regulação, cresce por causa dela. Cada nova exigência burocrática é um presente embrulhado para quem já tem advogado, contador e lobista na folha de pagamento. O resto morre na sala de espera do órgão regulador.
Some a isso o detalhe pouco discutido de que parte significativa dessas redes opera num arranjo de real estate em que o imóvel pertence a um trust imobiliário e a operação pertence à empresa, separação contábil elegante que serve para blindar ativo, otimizar imposto e, eventualmente, jogar prejuízo numa ponta enquanto a outra distribui dividendo gordo. É engenharia financeira sofisticada construída sobre um alicerce subsidiado. Tira o subsídio, desmonta o castelo. Mas o subsídio não vai sair, porque idoso vota, lobby do setor é dos mais musculosos de Washington, e nenhum congressista quer aparecer no jornal local como o sujeito que fechou o asilo da vizinhança.
O resultado é o de sempre, uma indústria que se apresenta como privada mas vive de dinheiro público, que se diz competitiva mas se consolida ano após ano nas mãos de meia dúzia de gigantes, que promete cuidar dos velhinhos mas otimiza margem operacional como qualquer outra commodity. Não há vilão de fantasia aqui, há um sistema que recompensa exatamente o comportamento que produz. A Ensign está apenas jogando o jogo que desenharam para ela jogar, e jogando bem. O escândalo não é a aquisição, é o tabuleiro. E o tabuleiro foi montado, peça por peça, por quem jurou que estava protegendo o cidadão.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.