Entidades ligadas à OrbiMed, uma das gestoras mais cirúrgicas do setor de biotecnologia no mundo, acabam de torrar quinze milhões de dólares comprando ações da Q32 Bio. Note bem o verbo. Não é subsídio, não é incentivo fiscal travestido de política industrial, não é BNDES escolhendo campeão nacional com dinheiro de aposentado. É capital próprio, de gente que estudou a empresa, leu os papers, conhece a equipe científica e decidiu que vale o risco. Se der errado, perdem. Se der certo, ganham. Singela maravilha que o Estado moderno aprendeu a desprezar.
Olha, o detalhe que ninguém aponta é o seguinte. Quinze milhões de dólares mudando de mãos numa empresa de biotech contêm mais informação econômica do que mil páginas de relatório do Ministério da Ciência. Cada centavo dessa transação é um voto sobre a viabilidade de uma molécula, sobre a competência de uma diretoria, sobre a probabilidade de uma terapia chegar ao paciente. Nenhum comitê de planejamento, por mais doutorado que tenha em volta da mesa, consegue agregar o conhecimento que está disperso entre os analistas, médicos, químicos e investidores que se moveram para fazer esse preço acontecer. O preço é o cérebro coletivo. Quem despreza isto está pedindo para empobrecer a humanidade.
Quer dizer, compare o procedimento. De um lado, um fundo especializado faz a aposta com seu próprio couro em jogo. Erro custa caro, acerto recompensa. Do outro lado, a indústria farmacêutica subsidiada via agência pública, onde o burocrata aprova um projeto bilionário sem pôr um centavo do próprio bolso, recebe salário no fim do mês independentemente do resultado e, se a tese fracassar, escreve um relatório dizendo que faltou verba. O incentivo está invertido. O privado tem skin in the game, o público tem desculpas in the game.
Me diz uma coisa, por que ninguém celebra esse tipo de notícia? Porque a imprensa econômica brasileira foi treinada para reverenciar o gasto público e desconfiar do lucro privado. Anuncia-se com pompa um programa governamental de inovação que vai distribuir bilhões para empresas selecionadas politicamente, e os jornais batem palma. Sai uma transação como esta, em que o mercado financia ciência de fronteira sem custar nada ao contribuinte, e o silêncio é constrangedor. A verdade é que a pesquisa biomédica avançou nas últimas décadas não apesar do mercado de capitais, mas graças a ele. As terapias que salvam vidas hoje nasceram do funil cruel da seleção de capital privado, não de comitês de planejamento.
E tem outro ponto que merece ser dito sem rodeios. Quando o capital privado erra, quem paga é o investidor. Quando o capital público erra, quem paga é o cidadão que nunca foi consultado, via inflação, imposto ou dívida que os netos herdarão. A diferença moral entre os dois sistemas é abissal, embora nossa elite intelectual prefira fingir que é apenas uma questão técnica de eficiência. Não é. É uma questão de quem suporta o risco da própria decisão. E quem assume o próprio risco merece, por justiça elementar, o fruto do próprio acerto.
O que aconteceu na compra da Q32 Bio é minúsculo em termos globais e gigantesco em termos pedagógicos. Mostra como o capital descobre o futuro tateando, errando, corrigindo, e como cada transação livremente acordada é um tijolo no edifício da prosperidade. Cada vez que um governo tenta substituir esse processo por planilha, o resultado é miséria com carimbo oficial. O mercado erra rápido e barato; o Estado erra devagar e cobra a conta de quem nem estava na sala.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.