Carlo Ancelotti deu entrevista dizendo que a decisão sobre convocar ou não Neymar não será fácil, mas que ele, italiano de Reggiolo, calejado em Real Madrid e Bayern, não sente pressão alguma. Quer dizer, o sujeito comandou vestiários com Cristiano Ronaldo, Zidane, Ibrahimovic e Ramos, e agora vem a imprensa esportiva brasileira tentar convencer o leitor de que ele perde o sono por causa de um meia-atacante de trinta e quatro anos com histórico médico de hospital de campanha. A pergunta que ninguém faz é por que, afinal, essa decisão deveria ser difícil para começar.

Olha, futebol é mercado. E mercado funciona quando os preços refletem a realidade. Neymar, no campo, é um ativo cujo valor de produção despencou faz tempo, basta olhar minutos jogados, lesões acumuladas e participação efetiva nos últimos ciclos. Mas Neymar, fora do campo, continua sendo uma máquina de gerar receita publicitária, audiência televisiva, engajamento de patrocinador e contrato de imagem que sustenta uma teia inteira de empresários, agentes, marcas e federações. A "dificuldade" da decisão de Ancelotti não é técnica, é política. E quando a decisão técnica é distorcida por interesse comercial, o que se vê é uma seleção, mas o que não se vê são todos os jogadores em melhor forma que ficaram de fora porque não vendem chuteira.

Me diz uma coisa, em que outra profissão um trabalhador com a folha corrida de afastamentos do camisa dez teria a vaga garantida no debate público? Em nenhuma. Só no futebol brasileiro, e só porque há décadas a CBF construiu um modelo de cartolagem em que a seleção deixou de ser meritocracia esportiva para virar vitrine de marketing. O resultado dessa engenharia de compadrio está nos placares dos últimos mundiais, naquela sequência humilhante que culminou na eliminação para a Croácia em 2022 e na campanha pífia que custou o emprego de meia dúzia de treinadores antes de o italiano aceitar a missão impossível por dezenas de milhões de euros anuais.

Siga o dinheiro e a coisa fica clara. Patrocínio máster da seleção, cláusulas de imagem, direitos de transmissão, amistosos pagos por federações asiáticas, tudo isso depende de uma narrativa em que o brasileiro mais famoso do planeta esteja em cena. Tirar Neymar é tirar receita de gente que nunca vestiu a camisa amarela mas vive dela. Por isso a "decisão difícil" é apresentada como dilema esportivo quando, na verdade, é negociação corporativa disfarçada de debate técnico. O torcedor paga a conta achando que está discutindo tática, e o que está em jogo é planilha de patrocínio.

Ancelotti, espertamente, joga a batata quente de volta. Diz que não sente pressão porque sabe que pressão verdadeira é dirigir o Real em final de Champions, não é decidir se um jogador desgastado merece minutos contra a Bolívia. Ao dizer que a decisão é difícil, ele protocola a ata para quando der errado: avisei que era complicado. Ao dizer que não sente pressão, sinaliza que não vai ceder à choradeira da imprensa esportiva. É um italiano fazendo o que cartola brasileiro nunca teve coragem de fazer, tratar a seleção como projeto esportivo e não como agência de eventos.

O que essa entrevista revela, no fundo, não é nada sobre Neymar. Revela que a única chance da seleção voltar a ser competitiva é justamente colocando alguém de fora do balcão de negócios para tomar decisões que contrariam o balcão de negócios. Se o italiano ceder, vira mais um. Se resistir, talvez devolva ao futebol brasileiro algo que ele perdeu junto com o penta, a noção de que time se monta com os melhores disponíveis hoje, não com os mais rentáveis ontem. Pressão de verdade não vem de microfone, vem de planilha de patrocinador. Veremos se o homem de Reggiolo aguenta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.