Autoridades iranianas voaram até Doha para discutir um suposto acordo de paz com o primeiro-ministro do Catar, e a imprensa internacional registrou o fato com aquela reverência que reserva aos rituais diplomáticos de aparência elevada. O detalhe que ninguém sublinha é mais prosaico: o Irã não senta para negociar quando está confortável, senta quando precisa de oxigênio. E o Catar, esse pequeno emirado que hospeda a maior base militar americana do Oriente Médio enquanto financia o Hamas e patrocina a Al Jazeera, virou o cartório onde toda a região vai registrar suas contradições.
Olha, a palavra "paz" no vocabulário de regimes teocráticos significa exatamente o oposto do que significa na boca de uma dona de casa de Curitiba. Para o aiatolá, paz é o intervalo entre duas ofensivas, o respiro logístico para reabastecer proxies no Líbano, no Iêmen e em Gaza, o tempo necessário para a centrífuga girar mais um pouco em Natanz. Quem acredita que enviados de Teerã viajam ao Golfo movidos por boa vontade abraâmica também acredita que controle de preço combate inflação e que imposto sobre rico ajuda pobre.
Siga o dinheiro, sempre. O Catar gasta bilhões em diplomacia porque a diplomacia compra algo que petróleo sozinho não compra: relevância. Doha financiou o Hamas com aval americano, abrigou a liderança do Talibã num hotel cinco estrelas enquanto Cabul caía, e agora oferece o sofá da sala para os persas conversarem com quem quer que apareça. É o mesmo modelo de negócio do despachante de cartório, só que com ar-condicionado de luxo e champanhe sem álcool. E o ocidente, que deveria desconfiar de mediador que cobra dos dois lados, agradece o serviço.
O que ninguém vê nessa fotografia em Doha é o custo invisível. Cada rodada de "diálogo" compra tempo para o regime iraniano sufocar sua própria população, prender mulheres por causa de um fio de cabelo aparecendo e enforcar dissidentes em guindastes de obras. Cada comunicado conjunto sobre estabilidade regional é uma autorização tácita para que Teerã continue exportando milícia armada como quem exporta tâmara. A paz negociada nesses gabinetes nunca é a paz do iraniano comum, é a paz do regime contra o iraniano comum.
O brasileiro que acompanha isso de longe deveria aprender alguma coisa, e dificilmente aprende. Toda vez que um governo concentra poder em nome de uma causa superior, seja revolução islâmica, seja justiça social, seja salvação climática, o que sobra no fim é a mesma estrutura: uma casta que decide pelos outros, uma burocracia que se autoperpetua e uma população que paga a conta achando que está participando da história. A geografia muda, a túnica muda, a retórica muda. O mecanismo é idêntico.
Enquanto enviados se cumprimentam em Doha com sorrisos protocolares, mísseis continuam sendo fabricados, drones continuam sendo testados e o relógio do enriquecimento continua girando. Diplomacia sem força por trás é teatro, e teatro com plateia ingênua é o ingresso mais caro que o contribuinte ocidental compra todo ano. Quando a próxima crise estourar, e vai estourar, vão dizer que ninguém viu chegando. Estava chegando em Doha, vestida de paz.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.