Na próxima semana, uma equipe do Fundo Monetário Internacional desembarca em Maputo para o que o comunicado oficial chama, com aquela solenidade de cartório, de "conversas econômicas". Quem acompanha esse circo há tempo suficiente sabe que a palavra "conversa" aí dentro carrega o mesmo peso semântico que tem na boca de agiota quando bate na porta do devedor. Não se conversa nada. Apresenta-se a conta, define-se o cronograma de pagamento e exige-se que o governo local assine embaixo, de preferência sorrindo para a foto.
Moçambique chega nesse encontro como tantos outros chegaram antes, asfixiado por dívida externa, com moeda esfarelando, inflação corroendo o pouco que sobra no bolso de quem trabalha e um governo que descobriu que é mais fácil pedir emprestado lá fora do que cortar o próprio banquete em casa. O Fundo aparece então como aquele primo rico que empresta dinheiro na hora do aperto, e cobra depois com juros de cartão de crédito, exigindo que você venda a geladeira, demita a empregada e ainda agradeça pela lição de responsabilidade fiscal.
O receituário é sempre o mesmo, e é por isso mesmo que vale a pena olhar com atenção. Vai pedir "ajuste fiscal", que em português claro significa aumentar imposto sobre quem já paga e cortar subsídio do combustível, do pão, da farinha, daquelas coisinhas que o pobre africano usa para não morrer. Vai pedir "reforma estrutural", que significa abrir setores estratégicos para capital estrangeiro comprar barato o que o povo construiu caro. Vai pedir "racionalização do gasto público", que jamais inclui racionalizar o salário do ministro, a frota oficial ou as comissões parlamentares, mas sempre inclui congelar o salário do professor e do enfermeiro. Veja o que se vê e, principalmente, veja o que ninguém quer que você veja.
E aqui entra a parte que o noticiário econômico bem-comportado nunca conta. Quem paga essa dívida toda? Não é o governo, governo nenhum paga nada, governo apenas transfere. Quem paga é a viúva de Tete que vai sentir o pão dobrar de preço amanhã, é o pescador da Beira que vai ver o diesel inviabilizar sua faina, é a costureira de Nampula que terá o salário mínimo corroído por uma inflação fabricada em Washington e administrada em Maputo. Siga o dinheiro até o fim do caminho e você encontrará sempre os mesmos credores recebendo, os mesmos consultores faturando e os mesmos pobres pagando.
O mais cínico de tudo é a encenação de tecnocracia. Os emissários chegam de terno escuro, falando em PIB potencial, hiato fiscal, sustentabilidade da dívida, como se estivessem aplicando física quântica em vez do truque mais velho da história, que é viver dos outros chamando isso de ciência. Nenhum desses senhores ousaria propor para a Alemanha ou para a França o que prescrevem para Moçambique sem ser expulso da sala a chineladas. Mas em país pobre, com governo dependente e imprensa domesticada, qualquer absurdo passa por sabedoria internacional.
O resultado dessa visita já está escrito antes mesmo do avião pousar. Sairá um comunicado conjunto, generoso em adjetivos e econômico em substantivos, falando em "compromissos mútuos" e "ajustes graduais". Em seis meses, o metical terá perdido mais valor, a inflação terá comido mais salário, e a dívida, que era o problema a resolver, terá crescido. Daí virá nova missão, novo empréstimo, nova rodada de "conversas". É assim que se transforma país em colônia sem precisar mandar exército. Basta um avião comercial, três economistas e uma planilha.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.