A pergunta que ninguém faz em voz alta nas salas de negociação entre Washington e Pequim é a mais simples de todas: por que desta vez seria diferente? A China entrou na Organização Mundial do Comércio em 2001 comprometendo-se solenemente a abrir mercados, eliminar barreiras comerciais e respeitar propriedade intelectual. Vinte e cinco anos depois, é o maior exportador de falsificações do planeta, subsidia indústrias inteiras com dinheiro estatal para afogar concorrentes estrangeiros a preço de custo e transforma acordos assinados em curiosidades históricas. Em 2020, a Fase 1 do acordo comercial com Trump era vendida como marco diplomático. A China não cumpriu as metas de compra que prometeu. E agora estamos aqui, de novo, com novos acordos sendo rascunhados em Paris enquanto especialistas com curriculum vitae suficiente para encher uma biblioteca tentam explicar, pacientemente, que o problema não é o texto do contrato. O problema é quem o assina.
Quer dizer, existe um ponto em que a boa-fé deixa de ser virtude e vira cumplicidade. Um regime que não permite eleições livres, que controla o fluxo de informação dentro de suas fronteiras com precisão cirúrgica, que mobiliza recursos do Estado para fins estratégicos disfarçados de decisões de mercado, e que mantém um aparato de espionagem industrial com alcance global, esse regime não negocia no sentido que o Ocidente entende a palavra. Ele usa a mesa de negociação como instrumento tático, uma forma de ganhar tempo, extrair concessões e criar dependências que serão exploradas depois. A estratégia atual tem até nome nas análises geopolíticas mais sérias: bater forte, conceder pouco. Qualquer acordo que emergir das conversas de Paris será revisado anualmente. Anualmente. Como se a outra parte fosse um inquilino inadimplente que merece outra chance todo dezembro.
Me diz uma coisa: quem paga a conta quando o acordo falha? Não o negociador americano que volta para Washington com um comunicado otimista e uma carreira intacta. Não o funcionário do Departamento de Comércio que redigiu o memorando celebrando o "consenso preliminar". Paga o produtor americano de soja que ajustou sua safra às promessas de compra que nunca vieram. Paga o fabricante de semicondutores europeu que investiu numa cadeia de fornecimento que o PCCh pode estrangular amanhã com uma restrição de terras raras. Paga o consumidor que absorve no preço final toda a distorção gerada por décadas de subsidiamento estatal chinês que nenhum acordo comercial ousou tocar de verdade. O dinheiro sempre encontra seu destino. Quando o Ocidente assina um acordo com Pequim e Pequim o descumpre, alguém sempre paga. Raramente é alguém em Pequim.
Olha, há algo particularmente revelador na estrutura atual das tarifas: os Estados Unidos reduziram as suas sobre produtos chineses para 30%, enquanto a China reduziu as suas sobre produtos americanos para 10%. Esse assimétria não é acidente nem concessão generosa de Pequim. É a fotografia perfeita da relação. A China precisa vender para o mercado americano; os Estados Unidos são o destino final de uma enorme fatia da produção chinesa. Pequim concede o mínimo necessário para manter o acesso ao mercado que sustenta seu modelo econômico, enquanto protege o próprio mercado doméstico com a mão que não aparece nas fotos da cúpula. Quem estuda mercantilismo reconhece o padrão imediatamente. O nome mudou, o manual é o mesmo que o Ocidente usou por séculos antes de convencer o resto do mundo de que livre comércio era melhor. A China convenceu o Ocidente, ficou com o livre acesso e manteve o protecionismo em casa.
A ingenuidade teria desculpa se fosse a primeira vez. Mas há um ponto em que repetir o mesmo experimento esperando resultado diferente deixa de ser otimismo e passa a ser escolha. Os que alertam sobre a duplicidade do PCCh não são paranoicos, não são guerreiros frios ressuscitados de 1985, não são ideólogos que precisam de um inimigo para existir. São analistas que leram os tratados anteriores, compararam com o que foi entregue e fizeram a conta. A conta não fecha. Nunca fechou. E enquanto Washington rascunha o próximo documento em Paris, com cláusulas de revisão anual e linguagem cuidadosamente vaga, o PCCh sabe exatamente o que aquele papel vale. A questão é quando Washington vai saber também.
Acordos com regimes que não respondem à sua própria população são peças de teatro com roteiro predefinido: o Ocidente encena boa vontade, o regime encena reciprocidade, e o tempo trabalha para quem tem mais paciência estratégica. A China tem paciência geológica. Washington tem ciclo eleitoral de quatro anos. A assimetria mais importante nessa negociação não é tarifária, é temporal.
Com informações da Epoch Times. A análise e opinião são do O Algoz.