A Annaly Capital Management bateu mais um marco trimestral e o mercado responde com o entusiasmo de torcedor em final de campeonato. Dez retornos positivos consecutivos, estratégia diversificada, gestão competente, narrativa impecável. O problema é que a festa acontece dentro de um cassino onde a casa sempre ganha porque quem dita a regra do jogo é o mesmo sujeito que imprime as fichas. REITs hipotecários como a Annaly vivem de um truque que só funciona enquanto o banco central continua alimentando o motor: capturar o spread entre o custo do dinheiro curto e o rendimento dos papéis longos lastreados em hipotecas. Quando o Fed comprime juros, o spread engorda e o dividendo vira festim. Quando o Fed muda de ideia, o modelo inteiro range como casa de madeira em terremoto.

Quer dizer, é fácil parecer gênio empilhando trimestres positivos quando você opera alavancado em seis, sete, oito vezes o capital próprio, comprando papéis que o próprio governo americano garante direta ou indiretamente através da Fannie Mae e da Freddie Mac. Isso não é capitalismo de risco, é arbitragem regulatória vestida de gestão sofisticada. O retorno privado é real, palpável, contabilizado em dividendos gordos distribuídos a acionistas. O risco, esse inconveniente detalhe, está socializado na garantia implícita do contribuinte americano que banca o mercado de hipotecas desde 2008 e não saiu mais de lá.

Olha, ninguém está discutindo aqui a competência dos gestores, que existe e é notória no setor. O ponto é outro, mais profundo, aquele que os relatórios trimestrais jamais vão tocar. O décimo retorno positivo consecutivo não é troféu de eficiência de mercado, é subproduto de uma arquitetura monetária que distorceu o custo do capital por tanto tempo que uma geração inteira de investidores esqueceu o que é preço de juros formado sem intervenção. Quando o dinheiro é artificialmente barato, todo mundo que consegue acesso ao balcão da janela vira gênio das finanças. A mágica evapora no instante em que o fluxo para.

Me diz uma coisa, por que justamente os REITs hipotecários prosperaram tanto nas últimas duas décadas? A resposta está no balanço do Federal Reserve, que acumulou trilhões em títulos lastreados em hipotecas e transformou o que deveria ser um mercado de crédito imobiliário em apêndice da política monetária. A Annaly surfou essa onda com maestria, é verdade, mas a onda foi engenharia de banco central, não força espontânea da poupança voluntária financiando construção habitacional. Em um mercado verdadeiramente livre, com juros formados pela preferência temporal real dos poupadores, estruturas alavancadas como essa existiriam em escala muito menor e cobrariam prêmios de risco compatíveis com a verdade.

E aqui está o detalhe que sempre fica de fora do otimismo de manchete: cada trimestre positivo de um REIT hipotecário em regime de juros manipulados significa que alguém está pagando a diferença. Esse alguém é o poupador que perdeu rendimento real durante anos de juros reprimidos, é o comprador da primeira casa que enfrenta preços inflados por décadas de crédito subsidiado, é o contribuinte que garante o sistema em última instância. A festa da Annaly é financiada por invisíveis, por aqueles que nunca vão aparecer no release trimestral porque sua perda está diluída em bilhões de transações que ninguém contabiliza junto.

O verdadeiro teste dessa estratégia diversificada não virá no próximo trimestre, nem no seguinte. Virá quando a impressora parar de girar ou quando a curva de juros decidir fazer o que já fez outras vezes na história, esmagar quem apostou que o truque duraria para sempre. Até lá, comemore-se o décimo retorno consecutivo com champanhe francês e relatórios ilustrados. A conta chega, sempre chega, e geralmente chega endereçada a quem não sabia que estava pagando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.