Vinte por cento. Esse é o número que a Investing.com BR finalmente teve coragem de divulgar, depois de décadas em que se falou de Ormuz apenas como veia entupida de petróleo. Os cabos submarinos que sustentam a comunicação entre Ásia, Europa, África e Oriente Médio se concentram naquele filete de água entre o Irã e Omã, e por ali passa um quinto do fluxo global de dados. Quer dizer, suas videochamadas, suas transações bancárias, seus emails, o pregão de bolsas inteiras, tudo depende de fios de vidro que repousam exatamente embaixo do palco onde drones iranianos brincam de provocar petroleiros toda semana. E você achando que a guerra do futuro seria nas nuvens.
Há uma ironia deliciosa nisso. Os mesmos burocratas que passam o dia legislando sobre proteção de dados, criando ministérios digitais, baixando marcos civis e regulando algoritmos como se entendessem o que é um pacote TCP, nunca ergueram um dedo para diversificar a topologia física da internet. Olha, a infraestrutura mais crítica da economia digital foi construída exatamente onde sempre se soube que haveria conflito, porque era mais barato passar cabo pelo trajeto curto do que pensar duas gerações à frente. Eis a sabedoria do planejamento estatal aplicada à conectividade: redundância zero, dependência total, e um discurso bonito sobre soberania digital enquanto o mundo inteiro pende de um nó cego.
Siga o dinheiro e o quadro fica mais interessante. As empresas que controlam esses cabos não são startups românticas, são consórcios bilionários onde aparecem os suspeitos de sempre, gigantes de telecomunicações com participação estatal de várias nações, fundos soberanos do Golfo e, claro, as big techs americanas que adoram fingir que são neutras. Cada metro de cabo passa por licenciamento, taxação, exigência de landing station local, e em cada porto uma comissão. O que se vê é uma internet "global e livre", o que não se vê é uma cadeia de pedágios estatais que tornaria qualquer barão feudal medieval com inveja da engenhosidade fiscal moderna.
E aí entra o detalhe que faz a piada virar tragédia. O Irã sabe disso há anos. Não precisa fechar Ormuz com minas e fragatas para causar estrago, basta uma âncora "acidentalmente" arrastada por um pesqueiro num ponto certo. Já aconteceu no Mar Vermelho, já aconteceu no Báltico, e a resposta dos governos foi a de sempre, reunião de emergência, nota de repúdio, promessa de investigação. Enquanto isso, o cabo continua lá, vulnerável, porque a alternativa terrestre custa caro e a alternativa via satélite ainda é insuficiente para o volume que a economia digital exige. A civilização inteira pendurada num cordão umbilical que qualquer adolescente com um barco de pesca consegue romper.
O que isso ensina sobre o mundo em que vivemos é simples e desconfortável. A mesma elite que prega centralização planejada como solução para tudo, do clima à inflação, construiu a espinha dorsal da modernidade num ponto único de falha geopolítica e chama isso de eficiência. O mercado livre teria espalhado redundância porque cada empresa quereria garantir sua própria rota, o consórcio dirigido prefere economizar e socializar o risco. Quando o cabo for cortado, e será cortado, vão culpar o Irã, vão culpar a geopolítica, vão culpar qualquer coisa menos a própria covardia de não diversificar quando ainda dava tempo. A conta, como sempre, virá para o usuário final, em latência, em apagão financeiro, em bolsa fechada por horas, em pânico de mercado. E os mesmos que criaram a vulnerabilidade aparecerão na televisão pedindo mais poder para "proteger" o que nunca souberam proteger.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.