Caças americanos derrubaram drones iranianos nas imediações do Estreito de Ormuz, e o mercado de futuros reagiu antes que qualquer chanceler tivesse tempo de pigarrear na frente do microfone. Pelo gargalo de pouco mais de trinta quilômetros de largura passa cerca de um terço de todo o petróleo transportado por mar no planeta, além de uma fatia gorda do gás natural liquefeito. Quem acha que isso é assunto de geopolítica distante nunca olhou o preço da gasolina na bomba depois de uma manchete dessas. A geografia, senhoras e senhores, continua ganhando das planilhas.
Olha, o roteiro é antigo e a plateia, distraída. Toda vez que um regime teocrático sente o cerco apertar, a primeira cartada é mexer no Golfo, porque sabe que o Ocidente domesticado pelo bem-estar não suporta dois meses de gasolina cara sem que algum primeiro-ministro caia ou algum congressista entregue qualquer coisa em troca de paz. É a velha chantagem do gargalo, repetida desde que o império persa cobrava pedágio das caravanas. Muda a tecnologia, o pedágio é o mesmo.
Agora siga o dinheiro, que é onde a coisa fica interessante. Quem ganha com Ormuz fechado? Produtores fora da região, traders posicionados em derivativos, o complexo industrial que vende drones de réplica e contramedidas, e, claro, os bancos centrais que adoram uma desculpa exógena para explicar por que o pão dobrou de preço enquanto eles imprimiam moeda como se papel fosse riqueza. A narrativa de "choque do petróleo" é o álibi perfeito para esconder anos de gastança financiada por impressora. Quando a inflação aparecer no boletim do mês que vem, vão jurar que a culpa é do aiatolá. Não é. A culpa é de quem encheu o sistema de liquidez e agora finge surpresa quando uma fagulha vira incêndio.
E aqui mora a parte que ninguém quer encarar. A dependência ocidental de um corredor naval controlado por regimes hostis não é fatalidade geológica, é escolha política. Foram décadas de veto ambientalista a perfuração doméstica, sabotagem regulatória a oleodutos, abandono de refino próprio e subsídio bilionário a fantasias energéticas que não aguentam um inverno rigoroso. O que se vê é o drone abatido na manchete. O que não se vê é a fila de licenças negadas, a usina nuclear cancelada, o poço fechado a sete chaves por decreto. A vulnerabilidade foi construída tijolo por tijolo dentro de casa, com dinheiro do contribuinte, em nome de virtudes proclamadas em conferências climáticas com jatinho na pista.
Quer dizer, e o Brasil nisso tudo? O Brasil assiste com a cara de quem acha que está longe, mas importa diesel, exporta commodity precificada em dólar e tem um banco central que jura controlar expectativa enquanto o Tesouro gasta como marinheiro em terra firme. Cada dólar a mais no barril vira centavo a mais no frete, que vira real a mais no arroz, que vira discurso de presidente culpando especulador. O ciclo é tão previsível que daria para escrever o pronunciamento antes do fato. A diferença é que, desta vez, a fagulha veio de um drone caindo no mar, e não de um tuíte mal calibrado em Brasília.
No fim, Ormuz é apenas o lembrete periódico de uma verdade que o mundo civilizado finge esquecer entre uma crise e outra: liberdade energética é liberdade, ponto. Quem terceiriza o próprio combustível terceiriza a própria soberania, e depois reclama que o mundo é injusto. Petróleo não é planilha, gargalo não é metáfora, e nenhuma meta de carbono segura tanque de guerra. O preço da ingenuidade estratégica sempre chega, e ele chega no posto da esquina.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.