O governo americano acaba de carimbar duzentos milhões de dólares para a reconstrução da Penn Station, e a imprensa noticia isso como se fosse uma boa notícia. Quer dizer, alguém em algum gabinete decidiu que tirar dinheiro de um caminhoneiro do Texas, de um pequeno comerciante de Ohio e de uma enfermeira da Flórida para reformar uma estação de trem em Manhattan é política pública sensata. E ninguém pergunta o óbvio, ninguém faz a pergunta que qualquer criança de dez anos faria, ninguém quer saber quem é o sortudo que vai receber esse dinheiro do outro lado da equação.
Porque é exatamente assim que funciona. O anúncio fala em duzentos milhões, mas o número real do projeto orbita os sete bilhões, e quem acompanha esse tipo de obra sabe que esse número vai dobrar antes da primeira pedra ser assentada. As empreiteiras já estão de plantão, os sindicatos da construção civil de Nova York já estão afiando as faturas, os escritórios de advocacia especializados em contratos federais já estão limpando a impressora, e os lobistas que articularam a verba já estão calculando a comissão. O contribuinte que paga ainda nem sabe que pagou.
O que se vê é a estação reformada, brilhante, fotografada por drones em vídeos institucionais com música pomposa ao fundo. O que não se vê é o pequeno empresário que não conseguiu o crédito porque o Tesouro absorveu a liquidez, é a família que perdeu poder de compra porque a impressora rodou para financiar mais este capricho, é a cidade do interior que continuará sem saneamento básico porque o dinheiro federal foi para refazer um saguão em Midtown que serve ao consumidor de luxo que já tem Uber, helicóptero e jato fretado. Cada obra pública anunciada com fanfarra é um cemitério invisível de oportunidades destruídas.
E aqui mora a velha falácia da reconstrução como motor de crescimento. Demolir e refazer não cria riqueza, apenas desloca recursos de usos produtivos para usos politicamente convenientes. Se reformar prédios enriquecesse nações, bastaria mandar dinamitar Manhattan a cada cinco anos e o PIB explodiria. O argumento é tão estúpido que precisa ser repetido pela imprensa com cara séria para que ninguém perceba que é estúpido. Funciona porque a maioria não pensa duas vezes, e quando pensa, já votou.
Há ainda o detalhe deliciosamente revelador de que a Penn Station original, a verdadeira, aquela obra-prima de granito e ferro inaugurada em 1910, foi demolida em 1963 pelo mesmo tipo de gente que hoje promete reconstruir o que destruíram. Foi a sabedoria progressista da época que decidiu que aquela beleza era ineficiente e que precisava dar lugar a um galpão subterrâneo deprimente. Sessenta anos depois, os herdeiros intelectuais dos mesmos demolidores anunciam, com solenidade, que vão consertar o estrago dos antecessores cobrando do contribuinte. É o ciclo perfeito do parasitismo público, quebra-se com dinheiro alheio, conserta-se com dinheiro alheio, e em ambas as pontas alguém embolsa.
O resto é encenação. Cortarão a fita com tesoura dourada, discursarão sobre o futuro do transporte coletivo, posarão para fotos ao lado de trens novos pagos com mais dinheiro que ninguém deu autorização para gastar, e em cinco anos estarão pedindo outra rodada de verba emergencial porque o orçamento estourou, porque os custos subiram, porque a inflação corroeu, porque a inflação que eles mesmos provocaram corroeu o orçamento que eles mesmos aprovaram. E a roda continua girando, e a conta continua chegando, e o cidadão continua trabalhando até maio só para sustentar gente que ele jamais elegeria se soubesse o que ela faz com seu dinheiro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.