Enquanto diplomatas trocam comunicados ensaiados e ministros fazem cara de preocupação para as câmeras, um navio-tanque catariano cruza o Estreito de Ormuz carregando o sangue da economia mundial. Por aquele corredor de água passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, e basta um míssil mal calculado, uma mina à deriva ou um drone perdido para que o preço do combustível em Cuiabá, Manaus ou Porto Alegre suba quinze por cento da noite para o dia. A guerra que parece distante está, na verdade, dentro do seu tanque.
Há aqui uma mentira fundadora que precisa ser desmontada. Os governos adoram apresentar conflitos como tragédias inevitáveis, fenômenos meteorológicos da geopolítica, algo que simplesmente acontece como tempestade de verão. Mentira. Toda guerra tem contrato, tem fornecedor, tem orçamento aprovado e tem lobby pressionando por mais um pacote de bilhões. A indústria bélica americana fechou trimestres recordes desde que a tensão no Golfo voltou a esquentar, e os ayatolás vendem petróleo escondido para a China financiando seu próprio aparato repressivo. Os dois lados ganham. Quem perde é o pescador iraniano, o pai de família texano e o motorista brasileiro que enche o tanque sem entender por que aquele número no painel da bomba sobe sozinho.
O Catar, nesse arranjo, faz o papel curioso de quem hospeda a maior base militar americana da região e ao mesmo tempo abriga escritórios de movimentos que Washington classifica como terroristas. Negocia com todo mundo, vende gás para todo mundo, se posiciona como mediador imparcial e fatura no atacado. É a versão fina do que os antigos chamavam de mercador de Tiro, aquele que prosperava precisamente porque a guerra alheia movimentava seu porto. Não há cinismo nisso, há cálculo. O cinismo está em quem finge não enxergar.
O que ninguém quer admitir é que o regime iraniano sobrevive há quarenta e seis anos não apesar das sanções americanas, mas em parte por causa delas. A retórica do inimigo externo é a cola que mantém o regime em pé, justifica a repressão interna, alimenta a propaganda das mesquitas e silencia qualquer um que ouse questionar a teocracia. Cada novo embargo é, paradoxalmente, um presente para os mesmos clérigos que o Ocidente diz querer derrubar. Quarenta e seis anos de isolamento não produziram revolução democrática nenhuma, produziram uma elite enriquecida no contrabando e um povo refém do bazar paralelo.
E o Brasil nessa história, como sempre, paga sem opinar. Nossa pauta de combustíveis está atrelada à cotação internacional, nossa política de preços da estatal vive de capricho ministerial, e qualquer espirro em Ormuz vira pneumonia no caixa do supermercado, porque frete encarece, fertilizante encarece, alimento encarece. O cidadão comum nunca votou para financiar a aventura militar de ninguém, mas é compulsoriamente sócio minoritário de todas elas via inflação importada e via imposto sobre combustível, esse confisco silencioso que ninguém ousa tocar porque dá voto e dá emenda parlamentar.
A grande lição que o noticiário se recusa a contar é simples e desconfortável. Não existe paz duradoura imposta por bombardeiros, não existe estabilidade fabricada por embargo, e não existe livre comércio florescendo sob a sombra de canhoneiras. O que existe é uma rede de interesses muito bem azeitada que precisa do conflito permanente para justificar orçamentos permanentes. Enquanto o navio catariano cruza o estreito hoje, em algum escritório de Virginia e em algum gabinete de Teerã, alguém comemora mais um trimestre de receita garantida pela tensão. O resto é teatro.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.