O Estreito de Ormuz tem trinta e nove quilômetros de largura no ponto mais apertado e carrega, todo santo dia, em torno de vinte milhões de barris de petróleo. É a artéria aorta da economia industrial moderna, e foi exatamente sobre essa aorta que iranianos e americanos resolveram, agora, fazer um arranjinho de extensão de cessar-fogo para reabrir a navegação. Repararam no detalhe? Não foi a ONU. Não foi a Liga Árabe. Não foi nenhum fórum multilateral cheio de crachá. Foi negociação direta entre quem tem mísseis e quem tem porta-aviões, mediada pelo único árbitro que ambos respeitam de verdade: o preço do barril na tela da Bloomberg.
Olha, toda vez que um estreito desses fecha, a conta chega num lugar muito específico, e quase nunca é onde a manchete promete. O sujeito que abastece o carro em São Paulo, o caminhoneiro que leva soja para Paranaguá, a dona de casa que compra óleo de cozinha em Belém, todos esses pagam pedágio para a geopolítica do Golfo Pérsico antes mesmo de o navio sair de Bandar Abbas. E o mais cômico é o ritual: governo brasileiro grita contra "especulação", convoca reunião emergencial, ameaça intervir na Petrobras, e nenhum desses gênios consegue explicar por que o preço sobe quando um xiita decide minar a rota de um sunita do outro lado do mundo. Quer dizer, o que se vê é a alta na bomba; o que ninguém vê é a cadeia inteira de decisões militares, monetárias e regulatórias que produziu aquele número.
E agora siga o dinheiro, que é o esporte mais honesto da análise política. O Irã está sufocado por sanções, com inflação anual rodando acima de quarenta por cento e uma juventude que já não acredita em mártir nenhum. Precisa vender petróleo, e precisa vender em dólar, porque rial não compra trigo no mercado internacional. Os Estados Unidos, do outro lado, têm uma eleição no horizonte e um eleitorado que pune incumbente sempre que o galão de gasolina passa de quatro dólares. Os dois lados precisam do mesmo desfecho, e por isso o "acordo" sai. Não é diplomacia, é aritmética. O resto é coreografia para a imprensa.
O ponto fino, que quase ninguém comenta, é o que esse episódio revela sobre o sistema monetário global. Se o petróleo não fosse precificado em dólar, metade dessa novela não existiria. O privilégio exorbitante da moeda americana é também o que dá a Washington poder de sanção sobre qualquer regime que ouse cogitar comércio em outra denominação. Por isso o Irã flerta com yuan, por isso a Rússia abraçou o rublo digital, por isso os BRICS conversam, mesmo que mal, sobre uma cesta de moedas. Cada Ormuz fechado é um lembrete de que o atual arranjo monetário internacional é mais frágil do que parece, e que o dia em que os produtores de energia descobrirem alternativa real ao dólar será o dia em que a festa americana acaba.
Há também a lição doméstica, que o brasileiro insiste em não aprender. Toda vez que um estreito tosse, descobrimos de novo que dependemos do mundo para o nosso combustível, embora estejamos sentados em cima do pré-sal, embora tenhamos uma das maiores estatais petrolíferas do planeta, embora paguemos uma das gasolinas mais caras do hemisfério em paridade de poder de compra. Por quê? Porque política de preço foi feita para agradar palanque, porque refino virou item ideológico, porque exportar bruto e importar derivado virou modelo de negócio defendido por quem se diz nacionalista. A soberania energética, no Brasil, é tema de discurso de sete de setembro e de absolutamente mais nada o resto do ano.
No fim, o que esse cessar-fogo prorrogado ensina é simples e velho como o comércio fenício: quando dois Estados precisam um do outro economicamente, encontram solução; quando não precisam, inventam guerra. O mercado, esse organismo que tantos burocratas desprezam, é o único mecanismo que ainda consegue obrigar fanáticos religiosos e impérios militares a sentar na mesma mesa e assinar papel. Pode parecer cínico, mas é a coisa mais civilizatória que sobrou. O barril manda mais que o profeta, e graças a Deus que manda.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.