Saiu o anúncio e a imprensa econômica repetiu como papagaio treinado: Estados Unidos e União Europeia vão "aprofundar a cooperação em minerais críticos" como antessala de um acordo comercial mais amplo. Traduzindo do burocratês para o português de gente: dois blocos que passaram trinta anos terceirizando toda a cadeia de lítio, cobalto, níquel e terras raras para a China acordaram, no susto, que dependem do adversário para fabricar a bateria do carro elétrico que eles mesmos obrigaram o cidadão a comprar. E a solução que encontraram, claro, não foi destravar mineração em casa, cortar licenciamento ambiental ideológico ou deixar o preço funcionar. Foi combinar entre si quem compra de quem, a que preço e com qual subsídio. Isso tem nome antigo, e não é livre comércio.
Olha, quando dois governos sentam para "coordenar" oferta de commodities estratégicas, o que está nascendo ali é um cartel. A diferença entre a OPEP e o que Washington e Bruxelas estão montando é apenas o verniz: os árabes não fingem que estão salvando o planeta enquanto fixam cota. O Ocidente fixa cota e ainda quer aplauso moral pelo gesto. E repare no mecanismo, porque ele é sempre o mesmo. Primeiro se cria a crise por decreto, proibindo extração interna em nome do clima. Depois se descobre, espantado, que o concorrente geopolítico domina 80% do refino global. Aí se anuncia um "plano estratégico" com dinheiro do contribuinte para subsidiar mineradora amiga, financiar refinaria em país aliado e garantir compra futura a preço acima do mercado. Quem ganha é a empresa que soube contratar o lobista certo em Washington e em Bruxelas. Quem perde é o sujeito que vai pagar mais caro pelo celular, pelo carro e pela conta de luz.
Me diz uma coisa: se o mercado desses minerais fosse realmente livre, precisaria de acordo intergovernamental? Cobre, ferro e alumínio circulam pelo mundo há dois séculos sem que presidente nenhum precisasse assinar tratado bilateral para garantir suprimento. O preço se formou, o capital fluiu, a mina apareceu onde o minério estava. A razão de hoje ser diferente não é técnica, é política. Os dois blocos criaram, com a própria mão, um ambiente regulatório em que abrir uma mina de lítio na Califórnia ou no norte da Suécia leva quinze anos de audiência pública, relatório de impacto e processo judicial movido por ONG financiada por fundação bilionária. O chinês abre em dois. Depois se olham no espelho e perguntam por que perderam a corrida. A resposta está na papelada que eles mesmos empilharam, não no mapa geológico.
E tem a parte que ninguém quer encarar, que é o custo invisível. Cada dólar que o Tesouro americano ou a Comissão Europeia empurra para "garantir cadeia de suprimentos" é um dólar que saiu do bolso de alguém. Veio via imposto, veio via inflação monetária, veio via dívida que o neto vai pagar. A fábrica de baterias que abre com subsídio aparece na foto, o ministro corta a fita, o jornal tira a manchete. Os milhares de pequenos negócios que não abriram porque o capital foi sugado para bancar o projeto bonito, esses não aparecem em lugar nenhum. A conta fiscal do Ocidente já está em ponto de ruptura, juros longos nos Estados Unidos beirando território de calote disfarçado, e a resposta da elite governante é criar mais um programa de gastança coordenada. É como tratar cirrose com conhaque importado.
Tem ainda o detalhe geopolítico que merece um minuto. O acordo sobre minerais é, confessadamente, a porta de entrada para um "acordo comercial mais amplo", que em Bruxelês quer dizer harmonização regulatória, tributação digital conjunta e alinhamento de padrões ESG. Ou seja, os dois maiores produtores de regulação do planeta vão combinar entre si as regras que o resto do mundo terá que aceitar para não ficar de fora do mercado. Brasil, que exporta minério e importa ideologia, vai receber a cartilha pronta e vai assinar, como sempre assina, na condição de aluno aplicado. A soberania regulatória do país, que já é ficção, vira piada. E o pior é que parte considerável da nossa classe empresarial vai achar ótimo, porque ganhará selo, certificação e acesso preferencial em troca de engolir regra escrita em idioma que não é o nosso.
No fim das contas, o que esse "aprofundamento da cooperação" revela é a falência de um modelo. Duas potências que se declaram liberais, que deram lição de livre mercado ao mundo inteiro durante meio século, agora montam planejamento central coordenado em escala transatlântica porque descobriram, tarde demais, que regulação destrói oferta, subsídio destrói produtividade e moeda impressa destrói cálculo econômico. A saída seria desregular, cortar imposto, devolver o dinheiro ao contribuinte e deixar o capital encontrar a mina. A saída que escolheram foi criar mais um burocrata com poder de decidir o preço do cobre. Quando a economia real vier cobrar a fatura, e ela sempre vem, o discurso oficial será o de sempre: a culpa é do mercado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.