O anúncio veio com a solenidade de sempre, aquele tom litúrgico de quem confunde Departamento do Tesouro com tribunal moral da humanidade. Washington publicou nova lista de empresas sancionadas, acusadas de fornecer componentes ao setor de armas iraniano, e a imprensa repetiu o comunicado oficial como se fosse jornalismo. Ninguém perguntou o óbvio, quer dizer, desde quando um governo, qualquer governo, tem autoridade legítima para proibir cidadãos privados de outros países de fazerem negócios entre si? A resposta sincera é que ninguém tem. Mas o dólar é a moeda de reserva mundial, e quem controla a tubulação do dinheiro controla o que pode e o que não pode ser produzido, vendido e comprado em três quartos do planeta.
Olha, sanção econômica é a fantasia preferida do burocrata moderno porque parece ação sem custo. O político assina papel, faz coletiva, recebe aplauso do editorial bem comportado e segue para o próximo assunto. O que se vê é o anúncio bombástico, a empresa banida, o discurso firme contra o regime inimigo. O que não se vê é a cadeia produtiva pulverizada, o trabalhador iraniano comum que perde emprego em fábrica que fazia válvula industrial, o pequeno fornecedor turco ou chinês que descobre, do dia para a noite, que sua contraparte virou pária financeira. O regime que se queria punir continua ali, gordo, com seus generais e seus contratos paralelos. Quem apanha é o sujeito que tentava sobreviver no mercado.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais constrangedora. Cada rodada de sanção alimenta uma indústria multibilionária de compliance, escritórios de advocacia em Washington, consultores em Londres, departamentos inteiros de bancos dedicados a interpretar listas que mudam toda semana. Há gente ganhando muito dinheiro vendendo a solução para o problema que o próprio governo criou. É o mesmo arranjo de sempre, o Estado fabrica a doença e licencia o remédio, cobrando pedágio em ambas as pontas. Os fabricantes americanos de armamento, por sinal, agradecem, porque mercado fechado ao concorrente é presente embrulhado em papel celofane.
Há ainda o detalhe filosófico que ninguém quer encarar. A premissa por trás dessas sanções é que existe um comitê em Washington capaz de saber, em tempo real, quais transações comerciais ao redor do globo são moralmente aceitáveis e quais não são. É a velha pretensão fatal de achar que um punhado de funcionários públicos consegue processar a informação dispersa de bilhões de trocas voluntárias e decretar a sentença correta. Não conseguem. Nunca conseguiram. As listas estão cheias de erros grotescos, empresas inocentes destruídas por homonímia, transações legítimas bloqueadas por algoritmo mal calibrado. E quando o erro aparece, a resposta é silêncio burocrático e mais um formulário a preencher.
O resultado prático de três décadas dessa política está aí para quem quiser ver. O Irã não democratizou, a Rússia não recuou, a Venezuela não reformou, Cuba segue sendo Cuba. O que aconteceu, isto sim, foi a aceleração de um sistema financeiro paralelo, com yuan, ouro, criptoativos e trocas bilaterais fora do dólar, justamente porque meio mundo entendeu que depender da boa vontade do Tesouro americano é entregar a soberania de bandeja. Cada nova sanção empurra mais um país para esse arranjo alternativo. Washington está, com as próprias mãos, desmontando o privilégio que o dólar custou setenta anos para construir.
No fim, a notícia é menor do que parece e maior do que dizem. Menor porque mais uma lista de empresas sancionadas é rotina burocrática, não política externa séria. Maior porque revela, de novo, a doença crônica do Império, a ilusão de que se pode governar o mundo com canetada e que liberdade econômica é privilégio que alguém em Washington concede ou retira conforme o humor da semana. Quem acredita nisso ainda não entendeu que sanção é o nome elegante do bloqueio, e bloqueio é ato de guerra contra civis. O resto é teatro para consumo doméstico.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.