Washington decidiu sentar com o México sem chamar o Canadá, e de repente o tal Acordo entre Estados Unidos, México e Canadá virou letra de papel higiênico. O USMCA, vendido em 2020 como o substituto modernizado do NAFTA, blindagem jurídica do comércio norte-americano para a próxima geração, durou exatamente o tempo que durou a paciência política da Casa Branca. Bastou uma mudança de ventos em Washington para que o trilateralismo virasse bilateralismo seletivo, e o Canadá, que até ontem era parceiro, descobrisse que está do lado de fora da sala onde o jogo é jogado.
Olha, ninguém precisava ser profeta para enxergar isso vindo. Todo acordo comercial entre Estados é, no fundo, uma promessa de cavalheiros armados, válida enquanto a relação de força que o produziu se mantém estável. Quando o equilíbrio muda, o texto se reinterpreta. Quando o interesse aperta, o texto se rasga. O contrato comercial internacional não tem juiz acima das partes, não tem xerife, não tem força executória que valha contra a maior economia do planeta. Vale o que o mais forte decidir que vale, e ponto.
E aqui é onde o teatro do livre comércio gerenciado mostra a fralda suja. Esses tratados nunca foram sobre liberdade comercial de verdade. Liberdade comercial é cidadão comprando do estrangeiro sem pedir licença a burocrata nenhum, é empresa decidindo de quem compra insumo sem precisar de certificado de origem assinado por três ministérios. O que esses acordos sempre foram, na essência, é cartel regulatório, regra escrita por lobistas das três capitais para proteger os grandes incumbentes de cada lado e fingir, para a plateia, que isso era integração econômica. Quando um dos sócios resolve renegociar a divisão do butim, o cartel racha. Simples assim.
Siga o dinheiro, que a coisa fica mais clara. O México tem o que Washington quer agora: mão de obra barata na porta de casa, capacidade de absorver as cadeias que estão saindo da Ásia no movimento de nearshoring, e um governo disposto a fazer concessões que o Canadá, com seu setor de laticínios mimado, sua indústria automobilística sindicalizada e sua autoestima de potência média, não vai entregar de bandeja. Então tira-se o canadense do quadro e negocia-se direto com quem está com fome. É a velha regra das mesas de pôquer, quem tem menos fichas joga primeiro porque é quem tem menos a perder e mais a ganhar.
Quer dizer, e o cidadão comum, aquele que paga o pato em todo arranjo desse tipo? Esse continua sendo a variável invisível da equação. O consumidor americano que vai engolir produto mais caro porque alguma cláusula nova vai proteger fabricante texano. O trabalhador canadense que vai perder emprego porque a fábrica vai migrar para Monterrey. O mexicano que vai descobrir, daqui a cinco anos, que as concessões feitas hoje viraram dependência amanhã. Ninguém pergunta a essa gente. Eles aparecem nos discursos como beneficiários genéricos do progresso, e desaparecem das planilhas quando a conta chega.
O episódio devia servir de lição para quem ainda acredita que ordem internacional baseada em regras existe fora dos slides de seminário em Genebra. Não existe. O que existe é uma hierarquia de poder econômico vestida com vocabulário jurídico para parecer civilizada. Quando o hegemon resolve mudar a coreografia, os parceiros menores ou dançam no novo ritmo ou ficam encostados na parede vendo o baile acontecer sem eles. Ottawa acabou de descobrir, em tempo real, qual dos dois papéis lhe coube nessa edição. E o Brasil, que ainda sonha com Mercosul revitalizado e acordo com a União Europeia, devia estar tomando nota, porque a régua que mediu o Canadá hoje é a mesma que vai medir todo mundo amanhã.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.