O secretário de Estado americano veio a público confirmar o óbvio que ninguém de bom senso queria dizer em voz alta. A delegação iraniana que vai acompanhar a seleção na Copa do Mundo está sob lupa das agências de inteligência porque há suspeita concreta de que alguns dos seus integrantes não são exatamente burocratas de federação esportiva, e sim operadores ligados à Guarda Revolucionária, a mesma turma que financia milícia no Líbano, mata estudante na rua de Teerã e abastece o Hamas com foguete. Olha, chamar isso de delegação esportiva é o mesmo que chamar carteira de cobrador da máfia de plano de previdência.
O truque é antigo e funciona porque o ocidente insiste em fingir que não enxerga. Você pega um regime teocrático, embrulha em bandeira de evento internacional, distribui credencial diplomática para um pelotão de agentes, e de repente o sujeito que comandaria um atentado em outra circunstância está passeando por estádio, hotel cinco estrelas e jantar oficial com imunidade. Futebol vira passaporte. A FIFA, que se vende como neutra, abre o tapete vermelho. O governo anfitrião reclama em surdina e libera o visto. E o cidadão comum, que pagou ingresso suando, divide arquibancada com gente cujo currículo verdadeiro está carimbado em sangue.
Me diz uma coisa, em que ponto da história resolvemos que evento esportivo é zona franca moral? Porque se a regra é separar esporte de política, então abram a Copa também para a delegação da Coreia do Norte fazer turismo em Miami, soltem o passaporte do agente russo que envenena dissidente em Londres, e já que estamos generosos, ofereçam camarote para o chefe do cartel mexicano. A hipocrisia tem hora marcada, e o relógio toca quando o patrocinador grande está no telão. O resto é discurso de coquetel.
Siga o dinheiro e a coisa fica ainda mais constrangedora. A Guarda Revolucionária é, antes de tudo, um conglomerado econômico. Controla porto, telecom, construtora, banco sombra, contrabando de petróleo e rede de lavagem que atravessa Dubai, Caracas e meia dúzia de paraísos fiscais. Mandar gente dessa estrutura para um evento global não é folclore, é prospecção. Cada aperto de mão num saguão de hotel, cada conversa de elevador com empresário desavisado, cada contato com diáspora iraniana no exterior é potencial célula, potencial contrato, potencial rota nova. Copa do Mundo, para esse tipo de organização, é feira de negócios com trilha sonora.
E aqui mora o detalhe que ninguém da imprensa bem comportada quer comentar. Os mesmos governos ocidentais que financiam a fantasia de que existe um Irã moderado, negociável, pronto para voltar ao concerto das nações, são os que agora precisam botar contraespionagem em cima da própria festa que ajudaram a maquiar. Quem passou anos afrouxando sanção, descongelando bilhão em ativo, vendendo a narrativa do acordo nuclear como triunfo da diplomacia, hoje finge surpresa quando descobre que o regime usou o oxigênio para profissionalizar exatamente o aparato que jurou estar contendo. Não é falha de inteligência. É falha de honestidade.
O recado serve para muito além de Washington e Teerã. Toda vez que uma democracia trata um regime brutal como interlocutor normal em nome do evento, do contrato ou do espetáculo, ela não está fazendo concessão tática, está educando o tirano. Está ensinando que basta esperar a próxima cerimônia, o próximo torneio, a próxima cúpula para reabilitar a imagem manchada de sangue. Quando o juiz apita o primeiro jogo, o regime já marcou seu gol mais importante. E ele foi marcado fora de campo, no balcão de credenciamento.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.