Marco Rubio confirmou nesta semana que o Departamento de Estado prepara a designação formal do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital como Foreign Terrorist Organizations, o mesmo selo carimbado em Hezbollah, Hamas e cartéis mexicanos. A notícia caiu em Brasília como xícara de porcelana em chão de mármore. Itamaraty engoliu seco, ministros começaram a falar em "soberania", comentaristas de televisão descobriram do dia para a noite que facção brasileira é coisa nossa e ninguém de fora tem o direito de opinar. Curioso. Quando as facções dominam morro, presídio, porto e fronteira, ninguém pergunta de quem é o problema. Quando estrangeiro pronuncia o nome do problema em voz alta, todo mundo vira jurista de plantão.
Vamos ao que interessa, que é o dinheiro. Facção não é gangue de bairro. É holding. CV e PCC movimentam bilhões de reais por ano em cocaína, armas, combustível adulterado, internet clandestina, transporte por aplicativo paralelo, loteria, mineração ilegal e, mais recentemente, terras agrícolas no Centro-Oeste. Têm advogados de butique, contadores, lavanderias financeiras sofisticadas, conexão com bancos legítimos, presença em quarenta países. O selo americano de terrorismo não é retórica, é instrumento cirúrgico. Significa congelamento de ativos em jurisdição dolarizada, criminalização de qualquer transação com terceiros, pressão sobre bancos correspondentes, sanções secundárias contra quem fingir que não viu. Quem perde com isso? Não é o pedreiro do Complexo do Alemão. É o operador financeiro de terno em São Paulo que pensava estar bem escondido.
E por isso o desconforto em Brasília é tão pitoresco. O argumento oficial, embrulhado em papel celofane de soberania nacional, é que classificação de terrorismo "criminaliza a pobreza" ou "abre porta para intervenção". Tradução honesta da diplomacia para o português corrente: alguém aqui dentro tem medo do que vai aparecer quando o FBI começar a puxar fio. Porque facção brasileira não cresceu no vácuo. Cresceu no abraço discreto de políticos que precisavam de voto em comunidade dominada, de empresários que precisavam de mão de obra sem direito trabalhista, de banqueiros que não perguntavam de onde vinha o depósito, de juízes que soltavam na audiência de custódia e de delegados que aceitavam mesada para olhar para o outro lado. O carimbo americano é um holofote, e holofote em porão revela barata.
Existe ironia mais saborosa do que um governo que passou anos chamando o adversário de fascista agora descobrir que a palavra terrorismo é grave demais para ser usada contra quem decapita gente em presídio? O mesmo establishment que enxergou ameaça à democracia em meme de WhatsApp não consegue enxergar ameaça em organização armada com poder de fogo superior ao de muitos exércitos nacionais. A seletividade do indignar-se denuncia a topografia ideológica de quem se indigna. Para certa elite, terrorista é o eleitor errado. Traficante é vítima do sistema.
O Brasil, como sempre, escolherá o caminho mais constrangedor possível. Vai protestar formalmente, dará entrevistas indignadas, escreverá nota conjunta com a Venezuela, e enquanto isso continuará perdendo controle territorial para organizações que já cobram pedágio em rodovia, taxa de proteção em comércio e imposto paralelo em favela. Soberania, no léxico atual, virou eufemismo para incompetência blindada por discurso. Quem manda no território é quem cobra o imposto, e em vasta porção do país brasileiro quem cobra não é a Receita Federal. É facção. Reconhecer isso não é entregar o país ao americano. É admitir que já entregamos o país a outra coisa, muito antes de Rubio abrir a boca.
A pergunta que ninguém em Brasília quer responder é simples. Se o carimbo americano atrapalha tanto, é porque alguém está prestes a perder muito. E quem tem a perder, nesta história, geralmente não mora na favela.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.