Os Estados Unidos resolveram, depois de uma investigação convenientemente longa, que parceiros comerciais merecem tarifa de no mínimo 10% por suposta tolerância a trabalho forçado em cadeias produtivas. Note o detalhe que ninguém comenta: a tarifa não pune o explorador estrangeiro, pune o cidadão americano que compra o produto. É o equivalente comercial a multar o cliente do restaurante porque o cozinheiro maltrata o ajudante. A lógica é tão tortuosa que só sobrevive embrulhada em retórica humanitária, que é justamente o papel de embrulho mais caro do mercado político contemporâneo.

Quer dizer, ninguém nessa história é contra combater trabalho análogo à escravidão. O ponto é outro, e é o ponto que sempre somem com ele: tarifa não combate trabalho forçado, combate concorrência. Se Washington quisesse de fato resolver o problema, sancionaria empresas específicas, processaria importadores cúmplices, cortaria contratos federais de quem comprasse das fábricas suspeitas. Nada disso aparece. Aparece a tarifa horizontal de 10%, que por coincidência cósmica beneficia exatamente os setores americanos que vinham perdendo mercado e gastando fortunas em lobby no Capitólio. Siga o dinheiro e a cruzada moral revela o sotaque de Pittsburgh.

Olha, o truque é antigo e funciona porque o eleitor enxerga o emprego que a tarifa "salva" e não enxerga os três que ela destrói no resto da economia. O operário da siderúrgica protegida posa para a foto com o presidente; o operário da fábrica de eletrodomésticos que usava aço importado mais barato perde o emprego em silêncio, seis meses depois, numa cidade que ninguém visita. O consumidor que paga 12% a mais pela geladeira nunca conecta o aumento à tarifa anunciada com pompa moral no ano anterior. É o golpe perfeito: vítima invisível, beneficiário visível, autor aplaudido.

Tem também o detalhe geopolítico que merece honestidade. Os EUA mantêm relações comerciais robustas com regimes que tratam trabalhadores como insumo descartável desde sempre, sem que isso jamais tivesse rendido tarifa generalizada. A indignação humanitária tem um timing curioso: aparece quando o parceiro comercial vira concorrente estratégico, e some quando ele volta a ser fornecedor barato e dócil. Direitos humanos viraram, na prática, cardápio à la carte da diplomacia tarifária. Pede-se o prato quando convém ao chef, devolve-se quando o forno está cheio.

Me diz uma coisa, em que momento da história protecionismo produziu prosperidade duradoura? Os anos 1930 estão ali, no manual, para quem quiser consultar: tarifa retaliada com tarifa, comércio mundial despencando em dois terços, depressão se aprofundando, e no fim da história todo mundo descobrindo que empobrecer o vizinho não enriquece ninguém. Repete-se a fórmula porque o custo é difuso e o ganho político é concentrado. Quem governa colhe o aplauso hoje; quem produz e quem consome paga a conta nos próximos dez anos, distribuída em mil pequenos aumentos que ninguém vai conseguir atribuir à decisão original.

O Brasil, claro, deveria estar prestando atenção, e não para imitar a bobagem, mas para entender que tarifa alheia é problema nosso na hora em que vira pretexto para tarifa nossa. Toda vez que uma potência inventa imposto com nome bonito, o burocrata local anota a receita e adapta. Amanhã teremos aqui alguma "contribuição de equilíbrio social na cadeia produtiva" com a mesma engenharia: nome nobre, alvo difuso, beneficiário identificável a olho nu se você souber onde olhar. O nome muda, o golpe é o mesmo. Tarifa com verniz moral continua sendo o que sempre foi: imposto cobrado de quem não votou, em benefício de quem patrocinou a campanha.

Com informações do Valor Econômico. A análise e opinião são do O Algoz.