O Departamento de Estado americano resolveu, de uma canetada, suspender a emissão de vistos para cidadãos de países africanos onde circula o ebola. A justificativa oficial é a de sempre, aquela palavra mágica que cala qualquer objeção em pleno século vinte e um, saúde pública. Curioso como o mesmo governo que durante anos jurou que fechar fronteiras era xenofobia, racismo e atraso civilizatório descobre, quando lhe convém, que fronteira existe sim, e que fechar é exatamente o que se faz quando há risco real ou imaginado do outro lado.
Olha, ninguém em sã consciência defende importar surto epidêmico. O ponto não é esse. O ponto é a régua. A mesma elite política e jornalística que tratou de criminosa qualquer tentativa de filtrar entrada em momentos de pressão migratória agora aplaude em silêncio constrangido a suspensão coletiva de vistos baseada em nacionalidade. Quer dizer, quando a justificativa é eleitoralmente conveniente, o controle de fronteira vira competência técnica. Quando é inconveniente, vira fascismo. A doutrina é simples, o critério é o poder.
E quem paga a conta? O comerciante nigeriano que tinha reunião marcada em Houston, o estudante de Uganda que economizou anos para um intercâmbio, a família ruandesa que tentava visitar parentes em Atlanta. Pessoas concretas, com nomes, histórias e passaportes carimbados, varridas por uma decisão coletiva tomada por burocratas que jamais conhecerão um único deles. O que se vê é a manchete tranquilizadora de proteção sanitária. O que não se vê é o tecido humano e econômico desfeito por um decreto que trata milhões como um único corpo contaminado.
Há ainda o detalhe técnico que ninguém comenta. Ebola se transmite por contato direto com fluidos corporais, não por respiração em cabine pressurizada. Existem protocolos de triagem, quarentena pontual, monitoramento. Tudo isso requer competência administrativa, gasto, esforço fino. Suspender visto em bloco, por outro lado, é grátis para quem decide e caríssimo para quem sofre. É a preguiça travestida de prudência, o atalho do governante que prefere o gesto largo ao trabalho preciso. Estado grande, sempre, escolhe o martelo mesmo quando o problema pede pinça.
Vale lembrar que toda epidemia, das medievais às recentes, serviu de pretexto para a expansão de poderes que depois não voltam para a caixa. Passaporte sanitário, restrição de movimento, censura a divergência médica, perseguição a dissidentes, tudo entrou silenciosamente no cardápio normal do governo moderno sob o argumento de emergência. A emergência passa, o controle fica. E quando o controle fica, o cidadão se acostuma, e quando se acostuma, esquece que um dia foi livre para entrar, sair, viajar e respirar sem pedir licença.
No fundo, o que está em jogo não é o ebola, é a coerência. Ou se admite que controle de fronteira é função legítima e se aplica com critério universal, ou se reconhece que a retórica das fronteiras abertas era propaganda ideológica descartada na primeira oportunidade. Os dois lados do espectro político americano, cada um na sua hora, provaram que ninguém ali acredita de verdade no que prega. Acreditam no poder, e o vírus apenas oferece o álibi da semana.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.