A Euronext anunciou lucros acima do esperado no primeiro trimestre e o presidente da casa, com a serenidade de quem encontrou ouro no quintal do vizinho, declarou ao microfone da Bloomberg que a Europa está se beneficiando da volatilidade. Traduzindo a frase para o português dos mortais, o homem está dizendo que o negócio dele vai bem porque o continente está economicamente nervoso. É como o coveiro elogiar a peste. A bolsa cobra taxa por transação, e quanto mais gente correndo de um lado para o outro, tentando proteger patrimônio, mais a roleta gira e mais a casa fatura.
Olha, ninguém precisa de doutorado em finanças para entender o truque. A volatilidade que enche os cofres da Euronext não brotou espontaneamente do solo europeu como uma erva selvagem. Ela foi cultivada com esmero por anos de juros artificialmente baixos, balanços inflados de bancos centrais que compraram tudo o que apareceu pela frente, dívidas soberanas que viraram piada de mau gosto e uma estrutura regulatória que sufoca capital produtivo enquanto premia especulação financeira. Quando o sujeito que controla a impressora finge que se assustou com o próprio incêndio e começa a apertar parafusos, os mercados convulsionam. E quem ganha com a convulsão? A bolsa, claro. Os bancos de investimento, evidente. O cidadão comum que vê sua poupança derreter, esse paga a conta.
O detalhe da aquisição da bolsa de Atenas merece uma pausa. A Euronext compra o mercado grego e logo em seguida anuncia que ele já está contribuindo para a receita. Quer dizer, o continente que quase implodiu há uma década por causa do calote helênico agora vira ativo gerador de dividendos para uma corporação financeira centralizada em Amsterdã. Há uma lógica perversa nisso. A crise destruiu o pequeno, consolidou o grande, e agora o grande colhe os frutos da destruição que ele mesmo ajudou a engendrar via Banco Central Europeu, troika e os pacotes de resgate que socializaram prejuízos e privatizaram lucros. É o velho roteiro: o contribuinte salva o sistema, e o sistema fica com o troco.
Me diz uma coisa, quando foi que volatilidade virou sinônimo de saúde econômica? Mercado saudável é o que precifica risco real, não o que pula de susto a cada coletiva de imprensa de banqueiro central. A Europa não está se beneficiando de nada, está sangrando produtividade enquanto os intermediários financeiros faturam comissão em cima da hemorragia. A indústria alemã definha, a França briga com sua própria dívida, a Itália sobrevive de respiração assistida monetária, e a notícia da semana é que a bolsa lucrou. Existe metáfora mais cruel para o estado atual do velho continente do que essa? O paciente piora, mas o termômetro vende bem.
O que não se vê nessa história, e nunca se vê nessas manchetes triunfalistas, são os negócios que não nasceram porque o capital foi desviado da economia real para o cassino regulatório. São os empregos que não foram criados, as fábricas que não foram abertas, as poupanças que foram corroídas pela inflação que ninguém quer chamar pelo nome. Cada ponto de volatilidade que aparece como receita no balanço da Euronext corresponde a centenas de famílias europeias que tiveram que rebalancear a vida porque o chão financeiro tremeu. Mas isso não vira manchete porque não cabe em coletiva de imprensa de CEO sorrindo no auditório.
O capitalismo de verdade, aquele que cria riqueza ao invés de redistribuí-la entre iniciados, prospera na estabilidade institucional, na moeda sólida e na previsibilidade de regras. O que se vê na Europa hoje é o seu oposto exato: um arranjo onde quanto pior o cenário macroeconômico, melhor para quem está sentado na mesa certa. Não é mercado livre, é compadrio sofisticado com gravata italiana. E enquanto o presidente da Euronext brinda o trimestre, alguém na periferia de Lisboa, Nápoles ou Atenas está calculando se chega ao fim do mês.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.