Vinte por cento de todo o petróleo que circula no planeta passa por um corredor de 33 quilômetros entre o Irã e Omã. Trinta e três quilômetros. É menos do que a distância de Copacabana ao Aeroporto do Galeão, e sobre esse pedaço de água a economia industrial do mundo inteiro está pendurada por um fio. Trump disse que vai cortar esse fio. O mercado europeu acordou na madrugada de segunda-feira e simplesmente acreditou nele, porque quando um presidente americano diz que vai bloquear um estreito, a história recente sugere que é melhor não apostar contra.
O Estreito de Ormuz não é uma abstração geopolítica para ser debatida em conferências com água com gás. É o tubo pelo qual passam as exportações do Golfo Pérsico inteiro, do Kuwait, do Iraque, dos Emirados, da Arábia Saudita e, claro, do Irã. Fechar esse tubo não é apertar um botão, é declarar guerra logística à economia global. Os preços subiram porque o mercado fez o cálculo que os governos europeus se recusam a fazer em público: sem Ormuz, a alternativa é o gás natural liquefeito americano, que chega por navio, é mais caro e está disponível, não por acaso, em terminais que os Estados Unidos passaram a última década incentivando a construção.
Siga o dinheiro. Sempre siga o dinheiro. Os Estados Unidos são hoje o maior exportador de gás natural liquefeito do mundo. Toda vez que a oferta do Golfo Pérsico é ameaçada, o GNL americano se valoriza. Toda vez que a Europa entra em pânico energético, os terminais de Sabine Pass e Freeport operam com filas de navios. Não estou dizendo que Trump acordou segunda-feira pensando nos acionistas da Cheniere Energy. Estou dizendo que o efeito existe, é mensurável, e quem financia análises que ignoram esse dado merece desconfiança metodológica.
A Europa chegou a este momento por escolha. Escolheu desmontar usinas nucleares em nome de uma estética ambiental que não aguenta dois invernos seguidos frios. Escolheu depender de gasodutos russos até a manhã em que acordou sem eles. Escolheu não investir em capacidade de regaseificação por décadas porque o gás russo era barato e a paz parecia permanente. Agora, com Moscou fora de cogitação e Ormuz sob ameaça, o continente que inventou a ordem econômica liberal está reduzido a torcer para que dois lados de um conflito que não controla decidam poupar a sua fatura de energia. Isso tem um nome na história, e o nome não é soberania.
O que os mercados fizeram nesta madrugada foi trabalho honesto: processaram informação incerta, atribuíram probabilidade a cenários ruins e ajustaram o preço. É exatamente isso que o sistema de preços existe para fazer. O problema não é o mercado ter subido. O problema é que o mercado só pode reagir, nunca prevenir, quando as decisões que criam vulnerabilidades estruturais são tomadas por burocratas em Berlim e Bruxelas que não respondem pela conta no fim do mês. O consumidor europeu responde. E vai responder de novo quando a próxima declaração chegar.
Ormuz já foi ameaçado antes. Na Guerra das Embarcações nos anos 1980, quando Irã e Iraque se atacavam no Golfo, o mundo ficou na beirada deste mesmo precipício. O estreito sobreviveu porque nenhum dos lados tinha interesse genuíno em afundar a economia global junto com a própria. Desta vez, a ameaça vem de Washington, e o cálculo é diferente, porque quem ameaça tem alternativas energéticas, e quem será punido, o consumidor europeu que paga a conta do gás, não tem voto em Washington. A ironia amarga é que o bloqueio de um estreito por uma superpotência que se apresenta como guardiã da ordem liberal internacional é exatamente o tipo de coisa que a ordem liberal internacional foi construída para impedir.
Com informações da Bloomberg. A análise e opinião são do O Algoz.